Xico Sá por Cláudio Assis

O diretor Cláudio Assis estreia Big Jato nos cinemas. O filme foi considerado pela crítica como um dos melhores trabalhos do cineasta e, no Festival de Brasília, venceu nas categorias: melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor roteiro e melhor trilha sonora. Se for realmente tão melhor que os demais; Amarelo Manga, Febre do Rato, Baixio das Bestas, entre outros, é difícil dizer, porém uma coisa é certa – Big Jato é definitivamente menos polêmico que os demais.

O longa-metragem é a adaptação dos roteiristas, Anna Carolina Francisco e Hilton Lacerda, de um livro de Xico Sá de mesmo título. Amigo íntimo do cineasta e com uma trajetória de vida muito semelhante à de Assis, Sá também veio do interior do Nordeste para a capital, resgatando nesta ficção traços de autobiografia tanto de um, quanto do outro, apesar da evidente carga fantasiosa da obra.

O filme conta sobre as dificuldades do menino Xico para desenvolver sua veia artística dentro da família e na provinciana cidade Peixe de Pedra, onde o mundo parece parado no tempo. Salve umas poucas referências contemporâneas, o expectador é induzido a mergulhar na vida de uma cidadezinha com cara de trinta anos mais velha, onde não existe sinal de celular e as roupas, carros e costumes parecem também desajustados ao hoje.

O menino Xico parece gostar do trabalho pesado junto ao pai, porém sonha em ser poeta. Ele tem como figuras-modelo “o velho”, como se refere ao pai, um trabalhador braçal, e o tio, um bon vivant convicto. Entre o respeito por um e a admiração pelo tio, o protagonista deixa a infância e começa a enfrentar os percalços da adolescência; bullying, primeiro amor e o dilema da vocação profissional.

As tomadas são esteticamente bonitas e criativas, e o diretor usa e abusa dos planos sequenciais, de imagens desfocadas e câmeras tremidas. O filme revela ao espectador, ao mesmo tempo, uma atmosfera de memória e realismo, a qual não se sabe se observamos o passado ou assistimos ao presente. Também, o diretor não resiste em se autorreferenciar na doença do pai, o personagem pega Febre do Rato, e até mesmo na cenografia da rádio local, com o cartaz do filme Amarelo Manga.

Porém, em relação ao que se diz e como se diz, o jato de elogios ao filme talvez não seja do tipo mais coerente. Por vezes caindo nos chavões e filosofias desconexas, fala-se de maneira inventiva, porém pouco se relaciona o conteúdo ao que se mostra. Também na atuação há sérios problemas, salve as exceções; o sempre estupendo Matheus Nachtergaeli, representando dois personagens de uma só vez, o pai e o tio, e Marcélia Cartaxo na pele da mãe de Xico. Já no caso de outros personagens, eles são ou gratuitos, como o Príncipe Ribamar, interpretado por Jards Macalé, ou inexpressivos. O menino Xico (Rafael Nicácio), por exemplo, não alcança a complexidade exigida pelo personagem e estagna em uma atuação pouco convincente e às vezes forçada. No entanto, para além dos prós e contras, sempre vale a pena conferir as produções de Claudio Assis, principalmente esta, que, de maneira inesperada, deu um caráter infanto-juvenil às costumeiras denúncias sociais do diretor.

Porém, vale levantar a bola para uma questão – sendo esse filme uma adaptação bem verossimilhante a um romance de Xico Sá-, é possível se contagiar com Big Jato sem se identificar com a obra do jornalista? Para esta que vos escreve, pareceu muito difícil.

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