Vamos falar sobre o seu autoritarismo

Governos autoritários que limitam as liberdades de escolha da população existem e sempre existiram ao redor do mundo, e o retorno do totalitarismo em qualquer país democrático é uma possibilidade. Porém, quando um país, por alguma razão ou acontecimento excepcional, demonstra que a sociedade é autoritária, com desconhecimento de como escutar o outro, a possibilidade da volta do desrespeito à liberdade é ainda maior. E o brasileiro, mais uma vez, frente ao impeachment da presidenta, se mostra como o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, tão afeito a receber ordens como a ordenar.

Todos os dias, nas ruas, nos jornais e nas redes sociais, diferentes demonstrações de tirania são testemunhadas no Brasil. Essa semana, vídeo de uma advogada, Janaína Paschoal, favorável ao impeachment, virou febre nas redes sociais. Do discurso, não se podia ouvir uma palavra, tamanha a violência em que a advogada proferia suas frases, em quase uma incitação ao ódio. Muitos fizeram brincadeiras, mas muitos irão replicar esse discurso, que demostra total e completa falta de diálogo e discussão, em um período que se precisa mais entender e ouvir, que proferir afirmações superficiais.

Os cidadãos de toga, nesse momento, são os primeiros a proferirem verdades completas. A importância que a sociedade brasileira deu ao advogado, desde a época do império, fez dessa profissão, um verdadeiro culto de verdades autoritárias e saberes falsos. Com postura de ditador, alguns advogados acusam a classe popular da passeata contra o impeachment de receber dinheiro para estar lá, outros têm personagens da trama do impeachment como heróis, em um orgulho cego de si próprio, com nenhuma visão do coletivo e do respeito ao outro. O advogado pensa representar a justiça, mas essa justiça não é de todos.

Nas ruas, pessoas vestindo vermelho são agredidas. Em filas de restaurantes, senhoras gritam e proferem palavrões contra a presidenta ao pagar a conta. A culpa é personalizada em Dilma, e o impeachment é erroneamente entendido como a solução para a sempre República das Bananas. Pensar coletivamente, discutir e trazer soluções para o problema estrutural não é feito em uma sociedade que tem tanto gosto por ordenar, e aí, quando a república se torna autoritária, os totalitários se calam satisfeitos com a higienização nacional.

O Brasil não necessita de um golpe militar para se tornar uma ditadura. Pode-se viver o totalitarismo dentro da democracia disfarçada em que se calam pobres e negros, e tudo que não é a classe média alta e branca, que em seu próprio entendimento não protesta por dinheiro, afinal, tem poder econômico e, pior, pensa ter educação. O governo que corta gastos em educação e saúde e faz uma política excludente também é totalitário.

Janaína Paschoal representa em tudo a sociedade brasileira autoritária, que não deixa o outro falar no momento em que bate panelas, ou que ecoa o hino nacional, feito há anos por um ditador monárquico. A questão é que, no momento em que você decide não escutar, você, indivíduo, tornou-se um pequeno ditador.

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