Uma coisa supostamente divertida

No último final de semana, em um festival de Jazz teoricamente imperdível, perguntaram para mim se eu buscava a quarta cerveja porque tinha muita sede ou porque precisava de algo para conseguir me divertir como deveria para a ocasião. Ao que parece, quando se está em um festival em uma cidade centenária ao lado de bons amigos, não haveria precisão de procurar aditivos para o divertimento. Ainda assim, foi o caso. Surpreendi-me com a resposta que me veio, apesar de ter respondido o oposto.

Não sei dizer com propriedade se o momento estava incômodo ou se eu já me condicionei a me aviltar do estado de consciência natural para evitar desconfortos, quase como uma medida profilática contra timidez e limitações.

Pareço muito doida quando reflito sobre isso. Mas, depois de reparar nas companhias, percebi que todos faziam o mesmo, fosse por meio de uma cerveja, uma cachaça a mais ou um cigarro. Alteravam-se antes de pressentirem o incômodo, tudo em prol do suprassumo da diversão que, na grande maioria das vezes, não acontece.

Perdi a conta das ocasiões em que procurei em qualquer tipo de consumo uma forma de aplacar o incômodo de colocar-me em um ambiente não adequado para mim, apesar do sábado à noite ditar conveniente o lugar e os nervos desalinhados – somos constantemente coagidos a nos relacionar uns com os outros.

A máxima maior da “vida feliz” é preencher o tempo com coisas levianas, companhias, até que chegue a hora das obrigações. Nunca parar e olhar para si ou para a sua relação com o meio onde está. Nunca criar significados diferentes daqueles já entregues.

Parece que são poucos e cada vez mais raros os tipos reflexivos, os sinceros com as suas vontades. Estes sempre tão famigerados como os rabugentos, os pessimistas. Não por menos, a investigação cuidadosa dos sintomas nem sempre traz constatações prazerosas. O exercício de pensar causa angústia. Em outras palavras, uma sensação de estreiteza sobre a capacidade de significar em um cotidiano insignificante.

Lembrei-me de um poema da Mira Gonzáles:

“eu estou olhando para pessoas dançando e se tocando

eu estou tomando vodka com gelo e me sentindo incrivelmente fodida

eu imagino se alguém sente-se mais solitário agora do que há uma hora atrás

quando eles estavam sozinhos em seus quartos olhando coisas na internet”.

Convenhamos que esse não é o poema mais saltitante do mundo, entretanto, ele traz uma sacada interessante – o narrador reflete sobre si e repara no outro em um ambiente que supostamente não se deve pensar, apenas aproveitarrrrr. Engraçado esses termos: aproveitar, esfriar a cabeça, curtir…

Heidegger disse algo sobre os humanos serem “seres destacados” pela capacidade de pensar as suas existências no presente momento em que existem. E suspeito que, se Heidegger estivesse entre nós, talvez ficasse um pouco desapontado com o rumo das coisas.

Esse texto que vos escrevo não é bem sobre estar bem ou mal ao sair de casa. Ele fala, entre outras coisas, sobre percebimentos; de como pensar e decodificar anseios caiu em desuso, um costume que nos falta e, de certa maneira, nos aliena de nós mesmos.

Talvez seja a hora de voltarmos ao Livro dos Conselhos de El-Rei Dom Duarte: “se podes olhar, vê, se podes ver, repara”. Por um mundo mais sincero.

Obrigada.

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