Um teatro construído a 28 patas furiosas

Uma macieira que come os próprios frutos e um lugarejo se movendo rumo ao mar, essa é a história contada e tão bem ilustrada pelo grupo 28 Patas Furiosas no espetáculo A macieira em cartaz, aos sábados e domingos, no Espaço 28.

Talvez apenas o tema da peça fosse argumento suficiente para instigar o espectador a conhecer mais de perto o espetáculo plástico, sensorial e fabular idealizado pelo grupo, porém, mais do que bem merecido, é preciso dizer mais.

A montagem nos convida, a princípio, para uma imersão no universo da escritora romena Herta Mullër em sua obra O homem é um grande faisão do mundo, em especial, para o capítulo do livro intitulado A macieira.

Müller conta a história de uma macieira que começa a se alimentar dos próprios frutos causando assombro e medo aos moradores locais, os quais por fim resolvem queimar a árvore, e Tadeu Renato, dramaturgo do grupo, parte do desfecho desse conto para compor um mito sobre um lugar que se desgruda da terra e, lentamente, desloca-se rumo ao oceano, logo após as brasas, daquela macieira misteriosa, extinguirem-se por completo.

A experiência cênica é projetada e pensada sobre o eixo temático do deslocamento e sobre as possíveis leituras que a locomoção proporciona. O movimento é experimentado não apenas na construção narrativa como também na transfiguração do espaço cênico no decorrer da peça. Coloca-se a natureza em transformação, em contraste com um homem assustado e estático pelo medo da mudança.

A cargo de contar essa história está a figura do narrador, muito bem deslocado do início para o meio do espetáculo, proporcionando ao expectador, primeiramente, vivenciar a fábula através dos atores e da interação deles com a cenografia, para, mais tarde, absorver por completo uma história capaz de transportar o público, tanto para o passado das grandes tradições orais, quanto para futuro incerto do cenário político contemporâneo brasileiro.

Em A macieira são as imagens que nos contam a histórias, as luzes que transmitem e reverberam impressões, e atores conectados de tal forma com o aparato cênico que representam em si um lugar. Uma obra, também, onde a dramaturgia e a direção estão tão intimamente conectadas que é impossível sobrepor a palavra ao olhar e a imagem ao que se diz.

Uma fábula sobre o deslocamento. Uma peça lacunar. Um convite a vivenciar algo que, mesmo misterioso e aflitivo, preenche a nós de interpretações sobre… Quase tudo.

Em cartaz:

A macieira
Espaço 28 – Rua Doutor Bacelar, 1219 – Vila Clementina.
Metrô Santa Cruz ou Praça da árvore.
Aos sábados às 21h e domingos às 20h.

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