Um pedacinho da Bolívia na Praça Kantuta

As ruas vazias de domingo no bairro do Pari, centro de São Paulo, não sugerem que, a poucos metros da estação Armênia, acontece a maior feira boliviana da cidade. Seguindo o fluxo daquelas pessoas morenas de olhos puxados saindo da estação, logo se avista o meio fio completamente ocupado por carros estacionados e alguns dos primeiros vendedores ambulantes. É o começo da Kantuta.

A feira leva o nome da praça onde acontece o encontro todos os domingos. O cheiro das barraquinhas de comida invade o ambiente, há quase todo o tipo de refeição, desde o PF boliviano até as típicas salteñas. Os ingredientes são familiares: carne vermelha, frango, batata e muito milho; mas o tempero, sem dúvida, causa receio nos visitantes menos aventureiros.

Dica importante, apesar das saltenãs (empanadas típicas) parecerem uma tortinha comum, reparar como os bolivianos comem a iguaria: uma colher e know how de como segurar o salgado ajudam a evitar uma senhora meleca durante o passeio.

Mais adiante, no centro da praça, encontra-se uma tenda para proteger as seis mesas de pebolim e os jogadores que se revezam em campeonatos improvisados. A madeira das mesas já é tão gasta que mal se adivinha a cor original daqueles móveis; todos os objetos, desde o tobogã inflável das crianças até a máquina de fazer raspadinha, parecem vindos de duas décadas atrás. O público predominante da feira são os bolivianos. Apesar do comércio de bolsas e artesanato para turistas e brasileiros, é evidente que aquele espaço serve mais de encontro para as comunidades andinas desfrutarem o domingo do que para outros fins.

Enquanto pergunto o preço da sacola de pães para uma senhora de idade quase tão característica quanto seus produtos, recebo um exemplar do jornal La Puerta Del Sol, edição em espanhol de distribuição gratuita feita pela ADRB, Associação De Residentes Bolivianos. O desconforto com uma das matérias do jornal somou com a resposta da senhora perante minha pergunta – quatro pães grandes custaram-me apenas R$ 1. Pedi para a senhora repetir o preço enquanto dividia a atenção com a chamada da notícia esclarecendo o que era o exame de papanicolal. Ela me respondeu o mesmo valor já com o saco de pão estendido.

Qual seria a margem de lucro daquela senhora vendendo o produto por aquele preço? Ela teria a noção de lucro sobre a mercadoria da mesma forma que eu tenho? Saberia ela também o que é um papanicolal? Naquele instante, dei-me conta de outra realidade.

Aquela senhora andina estava atrás de sua barraca em terras estrangeiras, porque quis estar ali e, ao mesmo tempo, encontrava-se naquele local porque não teve escolha.

Duas verdades contraditórias que coexistem no cotidiano dos imigrantes que chegam ao Brasil. Escolhem vir para o país apesar da desvalorização da sua força de trabalho e das situações desumanas em que estão sujeitos e o fazem porque o que encontram aqui ainda é melhor do que deixam para trás. Essa realidade existe, mas restringi-los apenas a essa percepção não vai ajudá-los a se integrar em nosso país. Essa associação entre bolivianos e mão de obra barata também é uma forma de segregá-los.

Onde:

Feira Kantuta

São Paulo – Estação CPTM – Armênia

Todos os domingos a partir das 13h.

Uma resposta para “Um pedacinho da Bolívia na Praça Kantuta”

  1. Parabéns, uma ótima percepção da situação dos imigrantes. Está convidada a apoiar projetos de ajuda aos estrangeiros.
    carmen

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