Um funeral para ARA San Juan

Imagem: EITAN ABRAMOVICH/AFP

Noticiários trazem novas evidencias sobre o submarino ARA San Juan desaparecido desde o dia 15 de novembro, aumentando a expectativa de amigos e familiares dos 44 tripulantes a bordo, dessa vez são os possíveis destroços do veículo.

Sem expectativas de sobreviventes, no início do mês de dezembro, o governo Macri declarou as buscas por encerradas. Porém, devido à pressão popular e ao auxílio internacional, a marinha argentina volta a investigar o paradeiro de ARA e trazê-lo à tona.

Familiares, amigos e a sociedade argentina não estão à espera de um milagre, eles protestam pelo direito de enterrarem seus mortos, afinal, foi a mando do governo que eles partiram e é obrigação do governo trazê-los de volta.

De acordo com especialistas, o processo do pesar é importante e natural para as pessoas digerirem uma morte, é o chamado luto, especialmente, se a perda acontece de maneira inesperada. Também afirmam ser fundamental a presença de um corpo ou ao menos uma fisicalidade da pessoa falecida, para que parentes, amigos e cônjuges executem uma homenagem.

Esse ritual de despedida ajuda as pessoas a digerirem uma situação de perda. Em casos como o ARA San Juan, onde não há vestígio das vítimas, a falta de um corpo pode ocasionar expectativas dolorosas no processo de luto.

Em muitos casos, falsas esperanças são alimentadas por filmes e romances onde o desaparecido retorna miraculosamente são e salvo. Essa espera irracional contribui para um processo de luto conturbado e é visto com frequência em situações de guerra e acidentes misteriosos.

Estuda-se bastante, em especial, a profundidade do luto nos casos onde a mãe perde o filho(a). Trata-se de uma das relações mais intensas das relações humanas, e um rompimento geralmente é traumático.

De acordo com a análise de Juan-David Nasio na obra, O livro do amor e da dor, quando um filho morre, ele leva com ele a função social de sua própria mãe. Em outras palavras, uma mulher que perde um filho deixa de ser mãe desse alguém que deixou de existir. Essa mulher, deslocada da função materna, que é uma das figuras mais icônicas do nosso imaginário, ela tende a se sentir desmembrada da sua própria compreensão pessoal.

A dor profunda de um luto materno acontece também diante da reorganização estrutural dessa mulher ferida que, de repente, deixa de ser “uma mãe” e torna-se outra coisa.

Portanto, os esforços do governo argentino e órgãos internacionais para encontrar o paradeiro do submarino e trazer à tona a embarcação é sobretudo um ato de respeito a essas pessoas que esperavam pelo retorno daqueles 45 tripulantes.

Se não foi possível salvá-los, ao menos é preciso preservar as outras vítimas dessa tragédia; essas esposas, maridos, mães, filhos e amigos que todos os dias abrem o jornal à procura de um sinal um pouco menos hipotético do que possa ter acontecido.

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