Um filme sobre aquela coisa bonita da coragem

“Porque têm dois tipos de medo e coragem, o meu é de quem finge que nada é perigoso, o seu é de quem sabe que tudo é perigoso nesse mar imenso” – Fragmento do filme Praia do Futuro.

Donato, interpretado pelo ator Wagner Moura, é salva-vidas na Praia do Futuro em Fortaleza. É a figura paterna com quem Airton (Jesuíta Barbosa), mantém uma relação muito próxima. O mais velho é o Aquaman para o menor, alguém que vive no mar e pelo mar não pode ser levado – “como é que o Aquaman vai sumir no mar, se ele já é do mar”. Até que um motoqueiro alemão chega e o herói vai-se embora.

O ato de abandonar a zona de conforto e vivenciar atmosferas novas, de certa forma, é o que permeia todas as obras de Karim Aïnouz, como diretor e/ou roteirista. Os personagens estão desconfortáveis dentro da própria pele. É esse incômodo que alavanca o movimento espacial em João Francisco, Violeta, Djalma e José Renato, personagens dos filmes anteriores.

O que Praia do Futuro dialoga com mais ênfase, em relação aos outros trabalhos, é o entendimento de coragem. Donato percebe a sua fragilidade quando é obrigado a fazer uma escolha e, desse confronto, percebe sua capacidade de transformação.

Aïnouz utiliza personagens masculinos justamente para revelar as delicadezas que envolvem uma relação amorosa entre um casal homossexual e o convívio de um deles com o irmão, intensificando as barreiras morais entre aquilo que se é e o que se espera de um homem.

No filme, o diretor entrelaça as atmosferas sentimentais dos personagens – o irmão, o motoqueiro e o salva-vidas – com os planos físicos e também morais em que se encontram.

Donato e Airton moram na Praia do Futuro, uma região que, apesar do nome, não comporta edifícios e construções em sua orla, a salinidade da maresia é tamanha que o sal penetra o concreto e corrói as estruturas de ferro, inviabilizando qualquer tipo de projeto arquitetônico complexo. A praia é artificial, o lugar onde os irmãos vivem, na verdade, é um aterro, teve a natureza modificada para atender as demandas daquela região, e o mesmo podemos dizer sobre Donato.

Num segundo momento, o cenário é a úmida e fria Berlim no inverno. Uma cidade que foi destruída e reconstruída ao longo das guerras, um lugar onde as coisas se renovam e talvez o salva-vidas, o personagem central da obra, pudesse também se reinventar.

O filósofo Friedrich Nietzsche inspirou-se no conceito de “vontade de potência” para embasar suas teorias, inclusive quando dialogava com as origens do que é moral e imoral. Para ele, o poder de se transformar é o que configura nosso horizonte e forma o substrato do que chamamos objetivo de vida. O homem precisa expandir-se da zona de conforto para sentir uma evolução pessoal, feito o filho que abandona a casa para encontrar-se com o mundo.

“Mais um filme gay”

Apesar do filme não ter a pretensão de se transformar em nenhum tipo de bandeira política, existe o viés contestador em uma relação amorosa entre dois homens, um viés que aparece justamente pela reação do preconceito, um elemento que não foi posto na obra com essa intenção, mas que reage dentro de uma sociedade homofóbica e machista como a brasileira.

O filme trabalha três grandes temas: o herói imperfeito, a volta do filho pródigo e a nossa capacidade de potência a que Donato chama de coragem. Mas uma parcela do público preferiu simplificá-lo para “mais um filme gay” com cenas de sexo “explícito”, apesar da classificação indicativa de 14 anos.

A filosofia de Nietzsche e os personagens de Aïnouz sugerem que nos conectemos com nosso potencial para construir – quando a ocasião pede – nossos próprios certos e errados.

Apesar do medo, vindo a reconhecer, na corda bamba, aquela conversa toda sobre coragem.

Deixe uma resposta