O empresário da política

A posse de Donald Trump foi marcada por uma onda de protestos nos Estados Unidos e no mundo. Norte-americanos ironizam a capacidade política do empresário e protestam contra colocações machistas e preconceituosas feitas durante a campanha presidencial mais sombria, caricata, truculenta e vulgar da história do país.

Uma parcela da população não se conforma com o resultado eleitoral que parecia piada de mal gosto e, portanto, foi descartado como verdade pela grande mídia. Porém, no dia das apurações, veio o susto. Em seu livro autobiográfico chamado: Trump – a arte da negociação, o atual presidente mostra sua estratégia: “uma vez eu disse que construiria o prédio mais alto do mundo, ninguém quis saber dos detalhes, só olharam o sensacionalismo”. E acrescenta: “qualquer história, mesmo negativa, é boa para o seu negócio”. E como ele acertou na receita.

O sistema eleitoral norte-americano funciona por votos indiretos e pode dar a falsa impressão de não-representatividade. Porém, não se trata de um método melhor ou pior do que o nosso, é apenas diferente. A compensação proporcional traz uma margem de erro insignificante para a decisão final. O sistema funciona da seguinte forma: os eleitores votam nos delegados dos seus respectivos Estados, e os delegados votam no candidato à presidência. A vitória dá ao vencedor toda as tiragens da delegação, ou seja, o vencedor da contagem ganha as cédulas de todas as cadeiras do Estado, portanto, colégios maiores como os da Califórnia e Texas, 55 e 38 cadeiras respectivamente, são decisivos para a escolha do novo presidente. Apenas dois Estados respeitam a contagem proporcional de votos: Nebraska e Maine. O país inteiro conta com 538 delegados e a soma de 270 votos dá a decisão. Porém, como em toda disputa muito acirrada, acontece de uma parcela não atendida pela decisão refletir o seu descontentamento, e daí tem-se a onde de protestos que tomam os Estados Unidos por hora.

A nomeação de Trump é legítima, porém, caminha nesse princípio de governabilidade em terreno minado. Muito semelhante com o caso brasileiro Aécio Neves x Dilma Rousseff, as manifestações da parcela perdedora aos mandos e desmandos do novo representante podem vir a causar sérias turbulências para o novo governo. No entanto, ao contrário da situação brsileira, o magnata conta com maioria republicana no Senado e na Câmara, ainda que sua postura dê o falar. Aparentemente, o candidato vencedor parece não visualizar um grande problema em ridicularizar seus opositores.

No âmbito jurídico, um grupo de advogados norte-americanos já protocolou uma demanda judicial contra o novo presidente, alegando a violação da Constituição dos Estados Unidos, Trump é incriminado por aceitar financiamento estrangeiro em sua campanha eleitoral através de suas empresas. Ele também é acusado de beneficiar negócios particulares, além de escândalos de sonegação de impostos. Mas nada disso parece abalar o eleitor do magnata. Para o homem de Trump, não é relevante o que ele fez ou desfez, desde que traga empregos ao país como prometido.

Vivemos em uma crise generalizada do fazer político quando começamos a confundir desenvolvimento com ascenção econõnica. A economia é vital para a estabilidade e bom fucionamento de um país. Porém não é apenas esse aspecto que deve ser considerado para se reger uma nação, em especial, uma potência como os Estados Unidos.

Diante de um pensamento simplório capitalista, nós permitimos a empresários cuidarem do bem social como se fosse a gestão de uma empresa privada. Donald Trump ganhou na América do Norte, mas a semelhança com os resultados brasileiros é inegável, vide o novo prefeito da cidade de São Paulo, João Dória, e os muitos magnatas perfeitamente acomodados em cadeiras públicas.

Se Donald Trump for habilidoso nas alianças como é nos negócios, ele pode vir a ter sucesso em sua empreitada. Porém, sucesso administrativo pode ser entendido como reflexo de melhoria social? Se ele ganhar, ganharemos todos? Vale a ressalva, é sempre sábio separar o joio do trigo – empresários em empresas, políticos na política.

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