Trilogia da América por Sergio Leone

O cineasta Sergio Leone, com o passar dos tempos, fica cada vez mais desconhecido das novas gerações. Seja pela desimportância que Hollywood construiu ao redor do cinema arte ou pelo desinteresse cultural de uma sociedade impaciente com o diverso, o nome de um dos melhores cineastas italianos do século XX é cada vez mais raro.

Sergio Leone ficou famoso por seus western spaghetti, em que o velho oeste se mistura a falas italianas. Apesar de possuir outras trilogias de igual importância, e atores famosos interpretando seus personagens, como Clint Eastwood, Claudia Cardinale e Charles Bronson, esse texto será dedicado à Trilogia da América, que não foi concebida como sequência, mas assim se tornou.

O primeiro filme da trilogia é Era uma vez no Oeste (C’era una volta il West, EUA, Itália, Espanha) de 1968. Considerado como um dos melhores filmes de velho oeste já concebido, possui cenas marcantes com filmagens intensas e focais, sempre acompanhada pela trilha sonora de Ennio Morricone, que consegue transformar a música em mais um ator expressivo da trama. As falas são intensas e os personagens não são bons ou ruins, ao estilo maniqueísta e simplista de um enredo mal elaborado. O bem e o mal se fundem, a ponto de não se perceber mais a definição de certo e errado. Em uma das falas: você me lembra minha mãe, a maior vadia do mundo e também a melhor pessoa que já conheci.

A segunda obra-prima veio logo depois, em 1971: Era uma vez a revolução (Giú la testa, Itália). O filme acontece em meio à Revolução Mexicana em 1910 e inicia-se com a frase de Mao Tse-Tung  escrita em letras garrafais: “A revolução não é um jantar social, um acontecimento literário, um desenho ou um bordado; não pode ser feita com elegância e cortesia. A revolução é um ato de violência.” No filme, a morte é um ato comum em meio à guerra e sofrimento do povo mexicano, dominado por uma elite estrangeira. O bandido torna-se um pouco revolucionário ao lado de um irlandês que se torna um pouco bandido. Novamente, o retrato fidedigno de um ser humano feio e bonito, que foi quebrado e reconstruído inúmeras vezes, ao som de Morricone e metralhadoras.

O último e consagrado filme dessa trilogia talvez não existisse. Sergio Leone levou 13 anos para finalizar Era uma vez na América (Once upon a time in America, Itália/EUA), de 1984, estrelado por Robert de Niro. No início do filme, o telefone toca incessantemente, e a tela congela; cenas exageradas que represem o exagero dos homens. É a história de um grupo de amigos que formam uma gangue quando pequenos e são separados por um acontecimento trágico. Em um momento, o protagonista estupra seu amor de infância dentro de um carro, após um comportado jantar, e ela prossegue amando-o. Sem dúvida, esse filme é uma das grandes obras-primas do cinema de todos os tempos.

Em sua época, Sergio Leone foi bastante criticado. Morreu em 1989 reconhecido pela crítica como um dos maiores diretores de cinema já existentes. Em trecho da revista BONTEMPS, de 1966: “O excesso [é] a única possibilidade de um western europeu existir sem ser insuportável, se fazendo exercício de estilo barroco e decadente num gênero que só está presente pela ausência nostalgicamente sentida: o western.” O estilo de Leone pode ser visto nos filmes de Quentin Tarantino, que assumidamente o tem como referência. O exagero barroco é a marca registrada do diretor.

Sergio Leone possui padrão próprio de fazer filme, o que o distingue por completo de outros diretores. A arte em suas películas tem o poder de sair da tela e tocar o telespectador. Todos os elementos em seus filmes estão fundidos num só, a música, as falas, os sons externos. A arte de Leone nos faz querer ser feios e belos, da maneira mais descomedida que consigamos alcançar.

 

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