Tributo a Elke Maravilha

Se este texto tivesse trilha sonora seria A noiva da cidade de Chico Buarque e Francis Hime, canção feita para o filme de Humberto Mauro de mesmo nome (1978), um dos maiores cineastas brasileiros, e que teve como protagonista a jovem Elke Maravilha.

“Será que a moça lá do alto não escuta o sobressalto do coração da gente” canta Chico Buarque em letra tão apropriada para o dia que Elke Maravilha, russa, alemã, filha de guerrilheiro, brasileira e apátrida, deixou os brasileiros com o coração apertado e um sorriso nos lábios por lembrar dessa figura que representava tantos ao mesmo tempo.

Elke Maravilha deixa o mundo com a lembrança de uma gargalhada, a maneira mais doce de uma memória. Ela foi atriz, modelo, secretária trilíngue, bancária, professora de inglês e francês. Tinha uma maneira humilde de falar de si mesma e uma visão de vida admirável. Sentia-se bem em estar ao redor de pessoas e rir com elas.

Sobre sua prisão por seis dias no DOPS, após rasgar cartazes em um acesso de fúria contra o desaparecimento do filho de sua colega Zuzu Angel, ela diz que seis dias não são nada em comparação aos seis meses que seu pai passou em um gulag na Sibéria sob o regime de Stálin. Toda a família sofreu com a guerra, mas falava sobre isso sempre em tom de ironia e humor. Citando seu pai, Elke dizia que apenas americanos e brasileiros choramingavam na guerra.

Dedicou-se a ajudar presidiários e à luta contra a lepra no Brasil, e inspirou milhões com sua personalidade. Essa semana o céu ficou ainda mais brilhante com a chegada de Elke Maravilha. Ela disse que biografia tinha que ser para Alexandre, o grande, para Sócrates, gente que modificou o mundo. Mas Elke, você mudou o mundo.

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