Terceirizando importâncias

Dois sujeitos brancos com circunferências planetárias discutiam política na calçada de um bairro nobre de São Paulo. Cruzei com eles na altura em que diziam: “só por causa de uns moleques petistas e aquele povo da CUT o pessoal deu para trás”. Preconceito meu por relacionar os tipos a comentários dessa natureza e preconceito deles por não verem mais do que rótulos esdrúxulos colocados sobre aqueles que lutam contra os interesses patronais ou que ao menos é o que afirmam fazer. Já não se sabe.

De qualquer forma, a questão é que, vez ou outra, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT) estão do lado do trabalhador, olha lá, e sendo nós todos pagadores de contas no fim do mês, é preciso ajudá-los na briga contra as terceirizações, que é, sobretudo, nossa também. Não podemos permitir o retrocesso das garantias trabalhistas dos brasileiros, conquistadas à custa de tanta cadeia, bala e borrachada.

Parlamentares favoráveis ao Projeto de Lei 4.330, o qual expande a liberdade das empresas na contratação de funcionários terceirizados, sentiram-se coagidos pelos sindicatos trabalhistas e pela má repercussão da medida nas mídias sociais. A pressão social nos últimos dias conseguiu adiar o desfecho da sessão em que os detalhes do projeto seriam aprovados e há quem diga que, dependendo do estrondo, é possível até engavetar o PL 4.330.

O caso dá uma boa briga. Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e patrono do projeto, não aceitou fácil o cancelamento da reunião e ameaçou abrir uma sessão extraordinária, que só não aconteceu porque foi aconselhado, a portas fechadas, sobre uma possível derrota. Em uma manobra para emplacar mais um contratempo para a bancada do PT, Eduardo Cunha sofre sua primeira derrota política dentro da Câmara. Segmentos do PSDB, o partido de Cunha, aliaram-se ao PT em uma parceria inusitada para defender as empresas estatais das terceirizações. Ao que tudo indica as estatais não entrarão nas mudanças do projeto de lei.

Ainda assim, se acertado e aprovado o PL 4.330, as projeções em longo prazo para o mercado de trabalho brasileiro são sinistras. De acordo com pesquisas feitas pela Procuradoria Geral da República (PGR), pela CUT, por juristas e pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos, o Brasil enfrentará uma queda na quantidade de postos de trabalho, salários serão diminuídos e a arrecadação fiscal ficará prejudicada. Além de gerar mais pobreza e exploração. Veja uma lista de nove motivos para nos preocuparmos.

Não nos informarmos sobre o caso e deixarmos de dar apoio a quem tenta bloquear o PL 4.330 é compactuar com um grupo de políticos que fazem o que bem entendem, por intriguinhas pelo poder ou a mando dos financiadores de campanhas. Portanto, é fundamental que, de uma vez por todas, a gente deixe algumas preguiças e preconceitos de lado.

Antes de apontarmos a situação como artimanha de PT ou coisa de sindicato, é bom entendermos o contexto, senão viramos facilmente massa de manobra. O que está em jogo é a qualidade das relações trabalhistas. E o futuro não anda nada promissor.

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