Teorema do entendimento

Faz algumas semanas, assisti a uma oficina de teatro onde o mediador pediu aos participantes para formarem um círculo e fecharem os olhos. A instrução: interagir com os objetos colocados em cena.

Havia no chão um aquário com água e um peixe estirado do lado de fora do vidro. Para espanto geral, o animal imóvel estava vivo e contorceu-se quando tentaram pegá-lo na mão, mesmo assim, com alguma dificuldade, devolveram o bichinho para o frasco. Um terceiro se aproximou, tirou o animal do aquário e recolocou-o no chão, outro foi ao resgate, o quinto bebeu a água do peixe, um sexto interviu e, em determinada altura, a sala tinha se dividido em dois grupos, os amigos dos peixes e algozes.

Os mais sensíveis e revoltados com a situação do peixinho deixaram o recinto, e os que ficaram, mesmo os protetores do animal, não interromperam a dinâmica da atividade. Enquanto as pessoas interpretavam um jogo de resgate e asfixia, fazia-se “arte” com a tortura de um indefeso. Não por menos, a atividade se transformou na polêmica da semana e questionaram inclusive a escola de teatro que permitiu esse tipo de oficina. Porém, pouco se falou sobre o comportamento particular de cada participante da oficina do peixe, inclusive daquelas pessoas que deixaram a atividade, sem se darem ao trabalho de entenderem a proposta do mediador.

Lembrei-me imediatamente de um texto escrito por David Foster Wallace chamado Isso é água. O autor inicia a sua reflexão com uma fábula: o peixe mais velho passa nadando diante de dois peixinhos mais novos e pergunta a eles “bom dia, como vai a água?” E os outros dois se entreolham e dizem “água, o que é isso?”

O texto chama a atenção para as sinucas morais de comportamento pessoal que se escondem nas banalidades da rotina. Dar atenção a elas, essas situações, é crucial para fazermos uma distinção de como proceder mesmo dentro de um grupo, porque por mais alinhado que estejamos com os nossos companheiros, a coletividade sempre foi uma faca perigosa de dois gumes – de um lado o pensamento coletivo, coisa linda, de outro, um rebanho uniforme e muitas vezes unilateral nas suas colocações.

Foster Wallace sugere que os assuntos mais esclarecidos e óbvios são geralmente os mais difíceis de conversar a respeito porque estão completamente aconchegados nas certezas individuais de cada um, e acrescento, de um grupo. Para o autor, uma formação em ciências humanas tem importância vital porque ensina, ou deveria ensinar, os estudados a compreenderem a abrangência das individualidades.

Relembrando a nossa responsabilidade em sempre projetar a observação para além do nosso umbigo, seja em uma situação latente, como a cena com o peixe, ou, ainda mais capciosa, uma crisinha de nervos com a caixa de supermercado que você jurou ser uma tapada porque ela não faz o serviço rápido como uma máquina que obviamente ela não é. Dialogar com alguém com ideias completamente diferentes das nossas, não é legal e não é fácil, mas é vital para compreendermos outros motivos e outras linhas de raciocínio. Em grande medida, um exercício de ouvir o outro.

É por meio do entendimento, não da concordância, vejam bem, senhores, duas palavras muito confundidas, porém diferentíssimas no significado, que poderemos trabalhar soluções e, com êxito, revertermos realidades.

Não se trata de conseguir pensar, uma capacidade inata a todo Homo sapiens, é também escolher de que forma e o que pensar. E se, por acaso, alguém acredita em alguma liberdade de escolha nessa sociedade panelinha, retomo à historinha dos peixes de Foster Wallace e peço, por favor, pensem de novo.

Deixe uma resposta