Tempos de reticente

Depois da votação do impeachment na Câmara, suspeito, muita gente deva estar se sentindo como eu me sinto – impotente como cidadã e com muita pena desse país. Nem tanto pelo resultado, um tanto óbvio, da votação; talvez mais por ter assistido àquela truculência televisionada de homens completamente inadequados para a função de averiguadores do sistema democrático. Pergunto-me, o que fazer agora? Como reagir sobre o leite derramado?

Eu, sinceramente, não sei. Não sei se as ferramentas usuais de protesto são efetivas contra uma estrutura tão bem solidificada em sua base.

No dia da posse de Michel Temer, sentindo-me ainda desconsolada, eu não liguei a televisão, não ouvi o rádio e fugi como pude, não foi fácil, de qualquer assunto de natureza política nos meus círculos sociais; àquela altura, eu não conseguia averiguar os motivos do meu alheamento. Porém, hoje, reconheço de onde eles vêm, e pressinto habitar, em mim, um velho temperamento familiar.

Sobrevivem, mesmo contra a nossa vontade, uns bons pedaços dos nossos pais em nós, e nós com certeza preferiríamos não percebê-los; apesar disso, em algumas ocasiões, uma pinta, a textura do cabelo… No meu caso, os ânimos diante de um desapontamento profundo, são estes iguais aos do meu velho pai.

A respeito dele – não há nada de desanimador e taciturno em sua natureza cotidiana; pelo contrário, aquela figura é um típico leonino, espirituoso, estrambótico e enérgico. Entretanto, nas ocasiões em que eu, menina, fazia alguma coisa terrível, ele reagia de uma maneira muito particular e incomum, ele emudecia.

Nessas ocasiões, não havia nem chinelo, nem corre-corre, nem cinta, nem proibições, não havia nada; apenas aquela ensurdecedora mudez. Era como se ele fosse tomado por uma súbita decepção com a minha pessoa e, nesses episódios, aquela desilusão, assim, mal articulada, doía-me até os ossos.

Muito mais tarde, vivendo e vivenciando desapontamentos mais profundos, consigo suspeitar o que meu pai pensava naqueles silêncios, que acabaram por se parecerem muito com os meus. Talvez houvesse lá, como existe em mim agora, a constatação infeliz de que não há controle sobre o curso dos acontecimentos.

Senti-me dessa forma na manhã de quinta-feira do dia 12 de maio. Eu desliguei o televisor, fugi das passeatas, não ouvi o rádio e evitei os amigos.

Alienei-me do mundo, reticente, eu agindo igual àqueles, os mesmos que tanto tento angariar para a ação política. Porque, enfim, cansei-me, por hora, da esperança.

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