Tatuagem

Sentei-me com os olhos alheios a quanto me rodeava no vagão do metrô. Imerso num pensamento organizacional, calculava quais seriam meus próximos passos; descer na Estação Consolação, encontrar café pouco frequentado, avançar a leitura do livro, fazer isso, aquilo, depois aquilo outro… Um par de sapatos.

Um par de sapatos desviou a minha atenção e colocou-se na minha diagonal, não tão próximo, nem tão longe. Nunca havia visto um modelo igual. Tamancos holandeses mais ajustados aos pés, de couro na parte dianteira e juta na posterior. Difícil figurar o modelo, eles pareciam da Sarah Chofakian com alguma coisa de ortopédico. Evidentemente não eram bonitos. Ainda assim, eu os usaria.

Reparei no tipo que os calçava. Calça jeans preta e uma camiseta com mensagem de protesto contra moda, também preta. Se não fosse a mensagem fuck fashion, diria maquiadora ou estilista, um pouco de incoerência na camiseta e a evidente combinação antenada das peças. Magra. Óculos de acetato preto, cabelos médios um pouco sujos, resultado de uma conjuntura vento mais descaso capilar, a pele muito branca, semblante forte, talvez trinta, quarenta anos, talvez mais.

Sobre ela pairava qualquer coisa de quem vive só e não se incomoda com isso, uma aura de quem morou por algum tempo em uma cidade impessoal e gelada, feito uma metrópole europeia ou coisa que o valha. Por que eu estava tão colado naquela figura? Curioso sobre quem seria. Quem usaria sapatos assim? Uma executiva, advogada? Não. Quem possuiria um ar tão impessoal e reconhecível como o dela? O pessoal do cinema? Jornalista?

Não recorreu ao celular e não ouvia música, um ser humano desconectado da internet, sem dúvida, não poderia encaixar-se nas especulações anterior. Então o quê? Nessas, o desembarque se aproximava, levantei-me e fui à porta. A mulher, que também desceria naquela estação, colocou-se ao meu lado. Em seu braço esquerdo tatuou scheiben mit blut, no direito, silêncio.

Escrever com sangue ou escrevam com sangue. A forma infinitiva do verbo semelhante à terceira pessoa do plural na conjugação verbal alemã. Uma tatuagem que, em uma mesma via, significa um conselho tanto para ela quanto para todos nós. A profissão daquela mulher de sapatos esquisitos, evidentemente, escritora.

Qualquer fragmento sobre multidão e solidão do Baudelaire me veio. As palavras exatas não sei citar, um poema sobre povoar solidões, significar na insignificância, essas coisas… Ainda que eu não tenha certeza, algo em mim diz que ela sabe preencher os seus vazios. Assim como eu venho aprendendo, a duras penas, pouco a pouco, a fazer o mesmo.

Somos tipos estranhos, os escritores. Talvez por isso eu tenha reconhecido ela em meio a tanta gente, talvez, por isso, eu tenha visto o recado, tão bem disfarçado em língua estrangeira.

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