#Somostodosculpados

Fotos de artistas famosos comendo bananas dominaram as mídias sociais na última semana. O lateral Daniel Alves foi vítima de racismo na vitória do Barcelona pelo Campeonato Espanhol, em que um torcedor jogou uma banana no campo e Daniel a comeu. Esse episódio é bastante comum em arenas européias com relação a jogadores brasileiros. A agência de publicidade Loducca, umas das maiores do país, criou hashtag e vídeo para o episódio, com o apadrinhamento de Neymar.

Há grande diferença entre jogadores de futebol bem sucedidos comerem bananas e uma criança negra e pobre ser destratada, ou uma empregada doméstica negra sofrer abuso de patrões. O “somos todos” já havia aparecido há alguns meses nas redes, onde pessoas brancas e estudadas empunhavam cartazes escritos “somos todas Cláudia”, em alusão a Cláudia Silva Ferreira, auxiliar de serviços gerais, morta for policiais militares após ser arrastada por um carro policial. Mas os que empunham bananas e cartazes de “somos todos” não são negros, não são pobres e não sofrem preconceitos.

A sociedade brasileira culpa os outros pelos males, mas não se vê como parte dessa culpa. Apenas empunhar cartazes afirmando que você é igual ao outro não força a igualdade, pelo contrário, apenas a afirma, ao negá-la. Você, branca, com boa educação, empregada e morando com seus pais ou amigas não é a Cláudia e nunca irá saber como é ser a Cláudia. Aceitar o desconhecimento do que é ser periférico é parte da solução, porque é a única maneira de entender que não se sabe e não se conhece o outro lado. Você, como eu, por ser branca, possui muito do que tem, porque um dia seus avôs apoiaram-se em trabalho escravo dos outros para ter o que nunca devia ter-lhes pertencido. Saber disso é entender ações afirmativas, que não deixam de ser uma transferência de renda para quem de fato foi dono dela. Há alguns meses, a atriz Fernanda Lima afirmou que não tinha nada a ver com a escolha dela e de seu marido para o sorteio da Copa – competiam com o casal de atores negros, Lázaro Ramos e Camila Pitanga. Ela tem culpa, já que todos temos por sermos fruto da segregação, e em vez de mudá-la, apenas sentamos em cima dela.

Um dia, um grande professor que eu tive me disse que, quando ele ensinava português nas favelas, insistia em fazer discussões sobre poemas e textos políticos, que relatavam a desigualdade social. Uma aluna lhe disse uma certa vez:

– Nós não gostamos desses textos. Quem gosta de desgraça é rico que não vive nela. Nós sabemos todos os dias como é ser excluído. Queremos algo alegre para esquecer essa realidade que não tem nada de estranha ou interessante pra gente.

É necessário que sejamos parte da solução. Porém, devemos saber que muitos querem dar suporte, falar e afirmar algo que não conhecem e que não viveram. É um passo adiante entender que há diferenças, para que um dia possamos ser todos verdadeiramente iguais. Nós não somos todos macacos, e não são todos que poderiam repetir o gesto de Daniel ou Neymar. Nós não somos todas Cláudia, porque nunca saberemos o que foi ser ela. Somos parte de um todo desigual, culpados e desconhecedores de tantas causas que afirmamos entender. Reconhecer a verdade é o início da mudança e conscientização.

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