Somos todos Cunha?

Não é House of Cards, é o Brasil, país que mostra ao mundo que a governança é um jogo de vale tudo. A regra é vencer. Eduardo Cunha, como um dia existiu Paulo César Farias, agora tem todos os holofotes. No dia de sua renúncia, ele chora por sua família e discursa com a habilidade de um radialista experiente. Ele representa o político ascensorista, que também lembra o perfil de muitos brasileiros médios, economistas, advogados ou médicos de formação medíocre, que sobem as escadas sociais por meio dos privilégios de uma sociedade desigual e patriarcalista.

Eduardo Consentino da Cunha é economista de formação. Com 30 anos de idade, já ocupava cargos importantes em empresas estatais de telecomunicações. Foi radialista e atuou em diversas rádios, sendo ilegalmente cotista de várias delas.  Evangélico, é contra o aborto, o casamento gay,  e possui projeto de lei que mercantiliza e retira verba do SUS (Sistema Único de Saúde), entre outras proposições conservadores. Ele é o cidadão médio, avesso a revoluções e mudanças, que joga muito bem o jogo que se lhe apresenta.

O primeiro cargo eleito de Cunha foi em 2011. O deputado antes já teve intimidade política com Fernando Collor, ex-presidente da república e Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, sempre ocupando cargos de confiança. Trata-se de um exemplo de ascensão por favores com habilidade em trocá-los a qualquer custo. Seu conhecimento principal é de como o Congresso funciona a seu favor, em uma completa desconexão com os deveres de seu cargo de acordo com a Constituição.

Porém, Cunha chama a atenção pela teimosia em não perder. Hoje, enfim e aos prantos, ele renunciou à presidência da Câmara dos Deputados após ser afastado por corrupção, lavagem de dinheiro e falso testemunho. Mesmo assim, o deputado se recusa a admitir as extorsões cometidas, e como bom ator que é, chora em frente às câmeras de um vídeo que logo será enterrado junto com sua carreira política.

É esse o perfil do ex-comandante de uma das casas mais importantes do legislativo federal, que por vários anos foi exemplo para muitos de como ser bem sucedido. Ele é o exemplo que será condenado, enquanto muitos outros, como Aécio Neves, saem de circulação nesse momento, na esperança de terem seus processos esquecidos, ao menos pelo povo. E outros, como Michel Temer, são presidentes da república.

A política como se apresenta no Brasil não é um privilégio desse país dos trópicos, que é apenas a nação da vez. O escárnio da política brasileira está em todos os lugares e governos do mundo. O interesse do capital e do lucro chega facilmente ao poder público. O sistema econômico e político vigente caminham de mãos dadas, lado a lado. É o lucro a qualquer custo, e que ganhe o que mais acumular, herdar e ter bons amigos.

Esse é apenas o jogo de cartas tupiniquim, versão Eduardo Cunha. A humanidade deveria bater panelas em seus próprios ouvidos surdos para sua grande criação democrática.

 

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