Sobre votar nulo e continuar no jogo

No dia 16 de abril de 1984, reuniram-se no Vale do Anhangabaú 1,5 milhão de pessoas. Exigiam dos militares as eleições diretas para a Presidência da República, e a sociedade civil o fez porque imaginava que a cédula eleitoral traria enfim a democracia ao país. Porém, com a conquista do voto direto pela Constituição de 1988, quase nada mudou para o povo e o seu direito de voz. Os interesses continuam os mesmos e as carências permanecem fora do hall das prioridades.

Não pretendo parecer derrotista em relação ao rumo na nossa sociedade e nem ao sistema representativo brasileiro, mas confesso não acreditar em uma mudança efetiva por vias eleitorais. A máquina movimenta as suas engrenagens no mesmo ritmo de sempre e a democracia, desde os seus inventores gregos, nunca foi um sistema para todos.

O aspecto democrático que podemos apontar nessa nossa democracia é a existência de vários partidos e a possibilidade de coligação entre eles. O partido A alia-se ao partido B para os eleitores de B votarem em A e vice-versa. Também, no Congresso, decidirão juntos os assuntos em pauta, pelo exercício do diálogo, do voto e por vezes otras cositas más.

A palavra partido possui sinônimos interessantes, se por um lado significa divisão, grupo, conjunto; por outro exemplifica benefício, proveito, vantagem. Sendo assim, não é preciso uma capacidade cognitiva apurada para perceber a perfídia do termo e a coerência entre nomes e bois. Não pensem caros leitores, que eu seja contra a pluralidade partidária, longe de mim uma sociedade de um partido só. Convenhamos.

Situação que me leva a desconfiar que se eu escolho o candidato X entre o W e o Z, ele não será capaz de fazer as mudanças que espero. Logo, pergunto-me: é aceitável levantar-se da mesa que não nos convém? E por que não?

Quando escolhemos o voto nulo, deixamos o outro eleitor decidir sobre o resultado das urnas, é verdade. A questão é – o meu voto faria diferença? Seria correto votar na opção presidencial menos desagradável? Se os candidatos não compartilham as minhas convicções, já não estão decidindo sem mim?

O voto nulo é uma forma de posicionamento crítico perante um sistema que não nos sentimos acolhidos e, portanto, não pode ser confundido com um ato de alienação. O sujeito sabe das cartas e prefere não colocá-las na mesa. É sobretudo uma postura diante desse direito, vale apontar, obrigatório.

Não há uma finalidade para essa ação, não é saudável alimentar a esperança de que poderíamos cancelar uma eleição por conta do número de votos nulos, esse não é o objetivo. O caso é outro.

Sinto uma dificuldade enorme, e creio que não estou só, em diferenciar o joio do trigo porque não consigo enxergar nada de diferente entre os candidatos presidenciais e o que esperar deles. Em uma rodada incerta, escolho sair ao pagar para ver. Um posicionamento pessoal e consciente de rejeição.

O votar nulo é passar a vez ao outro, como dito anteriormente, mas não necessariamente significa deixar o jogo; existem milhares de outras formas para contribuirmos com os problemas sociais brasileiros e com a nossa sociedade. Milhares de outras ferramentas para articularmos a mudança.

Lembremos de junho de 2013 e, voilà, eis a nossa pista.

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