Respeita as mina

Eu voltava para casa numa noite de sábado conversando casualmente com o motorista do Uber e, papo vai papo vem, começamos a falar sobre cantadas. Eu disse a ele: tenho uma sorte incomum com esse tipo de abordagem na rua (porque elas não acontecem), e ele me respondeu: “mas você não se acha feia quando ninguém mexe com você”? Choque. Eu não havia previsto aquela pérola.

Ouvir aquela pergunta sincera de um rapaz que de maneira alguma queria ser desagradável me chamou muito a atenção. Ele realmente tinha uma curiosidade sobre mim, porque, veja só que peculiar, eu havia dito que não gostava de cantadas.

Todos nós, meninas e meninos, sabemos que muitos homens se sentem no direito de verbalizar a maneira como uma mulher chama a atenção deles, seja qual for a conotação usada na abordagem. Tem gente que acredita (ou fala que acredita) estar elogiando a pessoa e, sobremaneira, no direito de expressar a sua opinião com coisas do tipo: gostosa, fiu fiu, ô lá em casa; e por aí vai.

Agora, se está claro como água o incômodo das mulheres quando buzinam ou gritam ou assobiam ou tentam pegar na mão no meio da rua, por que esses homens se comportam dessa forma? E ainda acreditam no direito do “galanteador”?

Eles estariam pavoneando-se para a mulher vistosa ou para os outros homens do meio? Afinal, não sei quantas paqueras bem sucedidas (arrisco, nenhuma) começam depois de grosserias em via pública.

Bom, se vamos nos apegar à teoria de que homens mexem com mulheres para se exibirem para outros homens, pois então o problema é mais sério do que se imagina. Vejam bem, não se trata de um sujeito sentindo vontade de se aproximar de uma mulher, nem de um cara tentando chamar a atenção dela. Trata-se, sobremaneira, de um cidadão que, junto com outros homens, sente-se acolhido e valorizado quando assedia uma mulher desconhecida. Sim, abordagem constrangedora é assédio.

Daí vem os moderados… “Ah, mas uma cantada não é bem uma agressão”. Afinal, ninguém bateu em ninguém, não é mesmo? E ninguém compactua com homem que bate em mulher, não é mesmo? Será?

Até 1940, ainda existia o artigo 27 na antiga Constituição permitindo o crime pela honra, uma espécie de legítima defesa da moral masculina, onde o marido era perdoado quando assassinava a mulher ou o amante em caso de adultério. O que seria essa lei se não outra roupagem para a prestação de contas masculina com o masculino? Mesmo que a lei brasileira tenha se modificado, ela ainda vale, e muito, na mentalidade brasileira.

Como mudar um cenário como esse? Bom, não se sabe ao certo, mas há muita gente tentando. O pessoal do Olga, por exemplo, criou uma campanha chamada Chega de Fiu Fiu.

A equipe do portal Olga mapeia horários e lugares propensos para agressões dessa natureza através do feedback de internautas, e a galera do Olga tenta conscientizar os passantes naquelas regiões com cartazes.

Eu gostaria de terminar esse texto escrevendo algo como – a que ponto nós chegamos! Mulheres tendo que monitorar agressores para defenderem a segurança feminina do ir e vir, mas…

Sinto que o problema seja exatamente esse – nós nunca chegamos a lugar algum, porque nunca nem saímos realmente do lugar. Quando falo nós, não falo sobre a batalha de milhares de mulheres militantes, eu digo nós como sociedade.

Mulheres, não se constranjam. Tem que denunciar. Tem que reagir.

E homens, pelo amor de Jah! Respeita as mina, cara.

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