Para onde iremos

Alguns falam em 300 pessoas, 150 famílias, enquanto líderes comunitários apontam uma população de 7 mil recém-desabrigados nessa segunda-feira dia 3. A ordem de despejo é da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), a área está situada às margens do rodoanel, entre os municípios de Arujá, Guarulhos e Itaquaquecetuba.

De acordo com o morador, Rafael Nascimento, as famílias deixavam o local desde sábado e só permaneceu quem realmente não teve para onde mudar-se, também afirma o abandono da região desde 1994, quando os primeiros moradores, inclusive ele, chegaram ao local. A CDHU alega tratar-se de uma área de preservação ambiental, porém não houve uma verificação concreta dessa informação para o público.

Por se tratar de uma região entre municípios, foi preciso três protocolos, em cada respectiva comarca, para por em prática a ordem de despejo. A juíza Márcia Blanes, de Guarulhos, deu a reintegração do trecho Estrada do Tronco, o juíz Sandro Cavalcante Rollo, de Arujá, requisitou a área da Avenida Aranto Pereira e o juíz Alexandre Muñoz, de Itaquaquecetuba, encarregou-se da antiga Fazenda Arbol, no bairro Perobal. A empresa encarregou-se de conjugar três ordens judiciais para a ação de despejo, mas não pôde reunir-se com os moradores para discutirem uma alternativa para os desabrigados. Ela alega ter ajudado ao disponibilizar 50 caminhões e uma equipe uniformizada para o auxilio na mudança, pressupondo existir um lugar para toda aquela gente.

No sábado, dia 1, 250 famílias deixaram o terreno e invadiram um conjunto habitacional da CDHU ainda por terminar. As famílias protestam formando rodas de oração e exibindo cartazes onde se lê: “A falta de ocupação dos servidores da CDHU vai causar mais ocupações”.

Milhares de pessoas ficaram sem teto nessa segunda-feira, dia 3, e os jornais nem deram nota do caso, quando muito, falaram do ocorrido pela situação do trânsito no local. Dessa vez, não houve morte, nem resistência, não atrapalharam o tráfego e por isso foi como se não fosse. É muito descaso com a condição daquelas famílias as quais são o próprio público da empresa, é muito descaso com as comunidades fragilizadas quando não são nem dignas de nota pela imprensa, apesar do volume de milhares novos desesperados nesse início de semana. Vê-se aí, nessas ocasiões ingratas, a diferença entre fatos, realidades e propagandas empresariais. Para onde eles vão ou para onde iremos assim, ninguém sabe.

A propósito, o Rodoanel Leste entre o quilômetro 124 e 129 foi liberado no período da tarde do mesmo dia, e o fluxo segue normalmente.

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