Os viajantes

Conhecer outros lugares é o desejo de muitas pessoas. Para elas, ver outros costumes e ter novas experiências é saber conectar-se ao outro. Em experiências com outros viajantes, pode-se perceber o caráter passageiro das relações que são estabelecidas durante uma viagem.  A simpatia inicial de todos é fácil, porque não precisa ter durabilidade. O outro dia será um novo local, uma nova cidade, uma nova pessoa. O turista é um passageiro, que passa sem compromisso por vidas alheias. O mochileiro enxerga sem entender, e ama o amor platônico daquele que nunca consegue se fundir ao outro.

A facilidade com que amizades são feitas em um hostel é estranha na rotina de cada um. Há uma anormalidade na forma em que essas amizades, tão fáceis em ambientes coletivos de viagem, não acontecem na vida comum das pessoas. A vontade de compartilhar e ajudar existe com maior força quando se é um passageiro. O não compromisso parece impulsionar o ser humano para a sociabilidade. Zygmunt Bauman analisa o caráter passageiro das relações construídas por meio de redes virtuais. A passagem permite o relacionamento sem se relacionar, assim como as redes o fazem. Permite conhecer pessoas que certamente nunca mais serão vistas, nomes que não serão recordados, lugares que não serão entendidos e países que nunca serão verdadeiramente conhecidos.

A passagem está diretamente relacionada com o tempo. As redes encurtam o tempo, de maneira a desvirtuar o conhecimento verdadeiro do outro. Ninguém consegue ter a habilidade de conhecer virtualmente. O virtual encurta espaços de maneira irreal, causando desequilíbrio na relação com o outro, em última instancia, suprimindo o compromisso. Assim acontece com as viagens passageiras. Rostos e lugares são vistos, odiados ou adorados, sem criar um comprometimento com ele. Enxergar lugares e pessoas é diferente de conhecer lugares e pessoas.

Logo o bem estar de conhecer torna-se mal estar de saber não ter entendido. O desejo de alongar o tempo deformado pelo caráter passageiro do viajante suprime a fusão necessária para poder conhecer, e só então amar ou odiar verdadeiramente. As relações fáceis com pessoas torna-se também a relação fácil com lugares, e quando se apaixona, não há mais tempo para amar, porque o tempo passou. É a frustação do amor platônico com lugares, que desde o inicio são destinados a não pertencer.

É a alegria de ter visto uma vez, e a tristeza de não poder tê-lo um pouco mais. Os viajantes são tristes e felizes ao mesmo tempo, estando sempre ligados ao sentimento ambíguo causado pelo olhar passageiro de se espiar de longe.

Deixe uma resposta