Os múltiplos significados do ebola

A existência do ebola data de 1976, com surtos no Sudão e República Democrática do Congo e, por vezes, o vírus volta a ocupar as manchetes internacionais, não tanto pela história de suas vítimas, mas pela maneira rápida que adoecem. Dessa vez, o vírus altamente contagioso retornou aos jornais e à África. Mas o alarde não seria tão grande se o vírus não tivesse saído de onde surgiu e alcançado Estados Unidos e Europa.

Como no livro de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, a epidemia no mundo contemporâneo é tratada com a distância e o isolamento, e não com a cura. No caso de uma doença que surge na África e dela pertencia, não há alternativa a não ser isolar ainda mais os países afetados. Fala-se em fronteiras ao contrário de cura. Em trecho do livro de Saramago “(…) ninguém parecia interessado em saber quem tinha morrido”.

A preocupação com o ebola veio com a contaminação fora das fronteiras da África. O que, aliás, não é a África, é Guiné, Serra Leoa e Libéria. Em uma rádio paulistana que dava a notícia que uma pessoa poderia ter contraído a doença no Brasil, apenas se ouvia, inúmeras vezes, o termo “o africano”. A pessoa não tinha identidade, era apenas um africano. Essa costuma ser a recepção a um refugiado desse continente em quase todos os outros países do mundo. É a famigerada herança escravocrata que paira sobre todos os povos. Tanto o ebola como os cidadãos da África Subsaariana devem permanecer em suas fronteiras.

A alternativa de fechar as fronteiras para os países com maior número de vítimas pode agravar ainda mais a situação daqueles que contraíram a doença e aumentar a disseminação do vírus. A presidente internacional dos Médicos sem Fronteiras (MSF), Joanne Liu, afirmou que aplicar processos de isolamento e quarentena, apenas fará com que as pessoas se afastem dos centros epidemiológicos. Essas medidas, de acordo com ela, apenas espalham o medo em vez de conter a doença. Muitas famílias escondem seus doentes quando se deparam com medidas coercitivas.

Além de mortes, o vírus nesses países também traz prejuízos econômicos sem precedentes. Serra Leoa, que acaba de sair de uma guerra, terá que arcar com prejuízos devido à epidemia e enfrentar mais uma crise. Relatório de avaliação do Banco Mundial estimou perdas a curto-prazo na Libéria, Serra Leoa e Guiné de 359 milhões de dólares. Uma vez mais, é visível que a solução não é fechar as fronteiras para os países afetados, mas sim, enviar ajuda.

A chegada da doença nos Estados Unidos e Europa, mais especificamente, Alemanha e Espanha, fez com que a comunidade mundial voltasse os olhos para o ebola. Contudo, as discussões de muitos governadores e congressistas nos Estados Unidos não são quanto ao descobrimento de uma vacina para a doença, mas para a contenção via isolamento do foco. Como em qualquer crise humanitária, os esforços devem ser em ajudar a nação com problemas epidemiológicos e não excluí-la ainda mais do sistema internacional. As perdas econômicas ainda acarretarão em problemas para auxiliar e tratar os pacientes infectados, e para não tornar a crise global, ajuda deve ser enviada pelos países ricos o mais rápido possível.

É assustador constatar que a saída para qualquer anormalidade ainda seja o afastamento. Em crises mundiais, chefes de Estado devem estar atentos para não tomarem decisões erradas, que apenas causarão mais mortes e não conterão o vírus. A crise do ebola também serve de reflexão para a maneira que o mundo trata nações negras e seus cidadãos. O segundo teste para o ebola do guineano recém-chegado ao Brasil, Souleymane Bah, deu negativo, e isso não pode ser entendido como um alívio para o Brasil, e sim como um alívio para Bah e sua família.

 

 

 

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