Os ares de mudança que sopram das cidades

As pessoas buscam a modernidade com a mesma força que a temem. Essa é a regra básica do mundo: falar em ser moderno, mas resistir às mudanças. Todos querem bem-estar social, porém relutam em modificar hábitos diários. Hoje, 54% da população mundial vive em áreas urbanas. As cidades se tornaram o palco de todos os anseios e vontades, uma mancha de pessoas, muitas vezes, apartada da natureza de onde extraímos nosso alimento. Um conglomerado de seres pensantes que, se não modificarem seus hábitos, pode vir a colapsar.

São Paulo: uma cidade de mais de 11 milhões de habitantes perece com falta de água e poluição, não apenas do ar, como também da terra e da água. Soluções para esses problemas necessitam de planejamento de governo, além de aceitação e vontade da população, atores principais da mudança. O que se vê é uma população pouco preparada para entender que o trânsito é formado por seus próprios carros, e não por bicicletas e pedestres, que devem ser respeitados e ser a maioria em uma cidade ocupada por pessoas. E essa lógica não é apenas para “consertar” o trânsito, mas para trazer um nível de vida elevado para uma população que sofre diariamente com problemas respiratórios devido à poluição.

Rio de Janeiro: mais de 6 milhões de habitantes entre os morros e a praia. Possui problemas de moradia, mobilidade e poluição. A Baía de Guanabara está poluída por esgoto. Ao todo, 35% do esgoto de uma das cidades mais ricas do Brasil não é tratado. Tanto São Paulo, como Rio de Janeiro são responsáveis por uma grande mancha de poluição de águas superficiais e subterrâneas nos mapas da Agência Nacional de Água (ANA). Os problemas de trânsito da cidade não é de diferente da mega cidade paulista. Tanto o carioca como o paulistano enfrentam horas de trânsito para chegar em casa.

E quando as autoridades iniciam mudanças, a exemplo do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o que se vê é a margem de popularidade do governante cair, e as reclamações aumentarem. Em São Paulo, teve início uma luta contra bicicletas completamente desnecessária. Os argumentos contrários vão da cor das ciclovias à circulação das bicicletas nas ruas em conjunto com os carros. As ciclovias construídas estão longe da perfeição, mas é um início de uma cidade nova, feita para pessoas, com menos poluição e menor ocupação de carros nas vias.

As resistências são diversas. A capacidade das pessoas de mudarem seus hábitos esbarra na mudança de infraestrutura construída para uma cidade sustentável. Corredores de ônibus aumentam o trânsito apenas se você não migrar do transporte privado para o coletivo. Sim, muitos ainda dependem do carro, mas, convenhamos, muitos outros não. A qualidade do transporte público tem melhorado consideravelmente em vias em que as pessoas ainda insistem em buscar pelo conforto e o status do carro.

Não há água no sudeste porque muitos insistem em acreditar que a água vem das torneiras, em uma análise limitada e infantil dos recurso naturais. A salvação dada pelo governador Geraldo Alckmin é transpor rios, o que significa alterar cursos de água e modificar as vazões fluviais. A solução dada, portanto, é a de explorar aqui, e depois mudar para acolá, e acolá, até lograr acabar com todas as fontes de água ao redor da cidade. E viva a dessalinização! Deixemos as indústrias, com alta tecnologia, explorar as águas do mar. A Shell poderia abrir um braço de dessalinização em águas profundas junto com a Petrobras quando não mais houver o que fazer.

E quando foi que as pessoas deixarem de ser donas de sua própria consciência e passaram a acreditar cegamente na tecnologia? Sem medir os custos da exploração ilimitada? O Papa Francisco escreve uma Encíclica Papal que enfim afirma que estamos caminhando para a auto-destruição, e um governante dos Estados Unidos afirma que ele deveria limitar-se a questões de espiritualidade. Não, as pessoas e intituições não devem ser limitadas aos cargos que exercem, fosse assim, as empresas não deveriam opinar sobre os recursos naturais do planeta. A população não se limita a votar quando chamada, ela deve construir a mudança, em conjunto com todos que já perceberam que ou mudamos ou caminhamos para o colapso.

O momento de transformar as cidades já passou, mas nunca é tarde. Para isso é preciso mudar radicalmente os hábitos de cada um. As cidades serão o princípio de um futuro melhor com qualidade de vida, em que a natureza volta a habitá-la, porque pessoas e meio ambiente caminham juntos. Resta a pergunta: a revolução dos hábitos virá antes ou depois das crises? Até quando a população freará mudanças e deixará que a exploração sem limites prossiga? A única certeza é que os holofotes estão virados para as cidades e, portanto, para você.

Deixe uma resposta