O último encontro com Eduardo Coutinho

“Todos querem ser ouvidos, porque isso traz legitimidade, mas todos estão interessados apenas em legitimar a si próprios”, com essa frase, o cineasta Eduardo Coutinho explica seu interesse em escutar, que é marca registrada de seus documentários. A morte antes do tempo deixou seu derradeiro filme, Últimas Conversas, cortado ao meio. João Moreira Salles o terminou como uma homenagem ao cineasta e fez jus à obra de Coutinho. Adolescentes se legitimando com palavras, e Coutinho com o silêncio atrás das câmeras.

O cineasta sempre foi crítico com suas obras, e constantemente reclamava dos rumos de seus filmes. No início de sua última filmagem, perguntou como fazia para quebrar os adolescentes, que já vinham com uma máscara para conversar com ele. “Com tijolos? Eu só posso dar os olhos e meu corpo” – disse ele. Mas com as perguntas certas, aquele senhor grisalho, que se esconde por detrás das telas e que só deixa sinal em fumaça de cigarro, consegue fazer com que os adolescentes aproximem-se de quem realmente são.

Os entrevistados têm até 18 anos e são da rede pública de ensino. Ao contar suas histórias, misturam inocência e experiência. A maioria possui condição bastante humilde e problemas familiares, como a ausência do pai ou da mãe, e a criação feita pela avó. Uma das entrevistadas chora ao falar sobre os abusos que sofreu na infância pelo padrasto. Coutinho fica em silêncio e depois indaga: “e você tem namorado?”. No mesmo momento, as lágrimas secam e um sorriso se abre no rosto da garota. Ela responde: sim, ele está aí. E como ele é? Bonito, responde ela já sem qualquer resquício de que um dia houvera tristeza.

A habilidade de Coutinho em jogar tijolos por meio de palavras e quebrar o interlocutor é bastante explícita nesse filme. São crianças pobres, algumas negras, que já passaram, sem exceção, por algum tipo de bullyng na escola, preconceito ou abuso na família. Mas que prosseguem ali, altivas, seguindo com suas máscaras tão necessárias quando saem da infância e tornam-se adultos. Quando ainda são pequenos para serem fortes, mas grandes o suficiente para já terem passado por alguns sofrimentos da vida.

O filme acaba como um telejornal. Depois de toda a desgraça das más notícias, entra uma menina de 6 anos. Mas ela não é qualquer menina de 6 anos. É uma garota vestida como um adulto, que se refere à babá com o pronome possessivo “minha”, com certeza algo que ouviu do pai ou da mãe, médicos. Ela é a pureza, o esporte após as desgraças. Coutinho se deleita com a pequenina e afirma: “Por isso queria ter chamado criança, e não chamar a tristeza da adolescência.” Ela se vai e deixa um gosto de encanto e sonho, não apenas porque ela é uma criança, mas porque vem de outra esfera social. Ela é o sonho de todos os adolescentes que estavam ali. A criança que todos gostariam de ter sido: protegida dentro da família com pai e mãe, e que pensa que nasceu de uma bolinha e que Deus é aquele que já morreu.

O último adolescente entrevistado, a pedido de Coutinho, deixa a porta aberta. Essa é a porta final entre o cineasta e os telespectadores. Eduardo Coutinho não fará mais filmes, mas possui um legado que o torna inesquecível. A porta para o cinema de Coutinho permanece aberta. Ele repete ao final do filme: Deus é aquele que já morreu. E assim, Eduardo Coutinho imortalizou-se como Deus da filmografia brasileira.

Deixe uma resposta