O suplício do Papai Noel

O artigo do antropólogo Claude Lévi-Strauss, O Suplício do Papai Noel, descreve o surgimento da figura de Noel na tradição natalina. Ao contrário do que muitos imaginam, o Papai Noel não foi criado como símbolo do consumismo, por levar presentes às crianças, mas como uma figura benévola que traz à infância o renascimento e a esperança.

Entendido de maneira diferente em cada cultura, as raízes de Noel relacionam-se à figura paternalista que julga o comportamento dos pequenos ao fim de cada ano. O ancião possui representatividade em tribos indígenas e culturas anteriores à ocidentalização do Natal. Infelizmente, hoje ele não escuta os pedidos abstratos de crianças, como uma nuvem de chocolate ou uma piscina de macarrão, mas sim o desejo do consumo.

O Natal transformou-se, de ritual infantil, em álibi para a demanda irracional de adultos. De acordo com Baudrillard na obra O sistema dos objetos, a publicidade faz com que sonhos sejam substituídos por objetos de consumo. Dessa forma, o Natal da maneira como é celebrado atualmente representa regressão social, pois tira dos homens a esperança e limitam-no a desejar objetos, e não mais sonhos.

O incentivo aos presentes industrializados esvazia o verdadeiro sentido da figura do bom homem que carrega sonhos em uma sacola vermelha. Presentear não é dar valores comerciais, mas lembranças de instantes em forma de fantasias. Ao menos quando criança não se deve economizar nos pedidos de céus, planetas intergalácticos e amores impossíveis. Querer algo que cabe em caixas e prateleiras esvazia o que há de mágico nessa época do ano.

O consumismo desvirtuou o entendimento do Natal, ao mostrar o presente para crianças e adultos como passe necessário para o que antes era, para alguns, tradição cultural e, para outros, religiosa. O presente de Natal é algo possível e comprável, que satisfaz os desejos dos homens de forma vazia, pois o que se quer verdadeiramente não são objetos com utilidades inventadas, mas possibilidades que a sociedade limita aos seus indivíduos.

Todo Natal, programas sociais recolhem brinquedos das classes altas para presentear crianças pobres. O correio tem uma campanha chamada Natal dos Correios, em que pessoas adotam cartas de crianças carentes com pedidos para o Papai Noel. A criança pediu uma família. Estava feliz por ter ganhado uma boneca, mas aquele objeto nunca substituiria seu sonho. Essa é a troca que o capitalismo inventou para fazer todos falsamente felizes, quem comprou a boneca e quem a ganhou.

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