O que é que a baiana não tem

O brasileiro para em semana de carnaval, mas o Brasil não. Um respiro para os protestos de rua e as reivindicações que, nessa semana, perdem fôlego. Uma grande festa para acalentar os ânimos exaltados, enquanto os problemas de infraestrutura prosseguem latentes nas cidades.  O lema “imagine na Copa” recupera legitimidade. Nesta semana, tudo foi festa, no entanto como prosseguirão as discussões políticas pós-carnaval? Será que na Copa, o brasileiro também vai optar pela comemoração?

Infraestrutura é apenas um dos problemas que percebemos no momento de ir e vir, antes e depois da folia. Outros temas, como os locais destinados para as manifestações pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, ainda estão por resolver.

Será que ele usará a mesma organização do carnaval para definir os grupos de manifestantes? Ala dos Black Bloc, ala da juventude social, ala dos sem teto? Cada cidadão dentro da ala em que for nomeado?

Um absurdo para qualquer pessoa que conheça a constituição, que é clara ao dizer que manifestações devem ser apenas comunicadas, e não autorizadas. Pois “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”, artigo 5o.

A reforma ministerial da presidenta Dilma também será postergada, assim como o desfecho do mensalão. Serão assuntos que, espera-se, voltem para as manchetes dos jornais após a primeira semana de março. Os dois novos ministros do supremo, indicados por Dilma, Luís Roberto Barroso e Teori Zavascki, já fizeram a diferença no corpo decisório do STF, ao contribuir para a absolvição de oito réus do crime de formação de quadrilha no mensalão. Nesse ínterim, entre decisões políticas de alta relevância, há um apagão político no país, representado por uma manifestação cultural de rua – o carnaval.

Ninguém está contra o carnaval, como está contra os gastos públicos com a Copa 2014. Porém, ainda há dúvidas se o furor das ruas prosseguirá na semana dos jogos. Principalmente, nos dias em que a seleção entrar em campo. Esperemos que o verso do poeta brasileiro, Augusto dos Anjos, faça sentido na terra do futebol: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Porque enquanto há folia e festa para alguns, há fome para muitos; enquanto há esquecimento da realidade, há os esquecidos.

O carnaval não deixa de ser manifesto, já que é uma das representações culturais mais conhecidas do país. É também ir às ruas, homenagear o brasileiro. Futebol e carnaval são um pouquinho do que a baiana tem. Mas ela também tem mais, muito mais problemas com que se preocupar. Espera-se que o apagão político dure apenas o tempo da folia, e não seja esquecido nos dias de futebol. Assuntos urgentes foram postergados e não resolvidos. Que a ressaca passe logo. Porque, há muito, o tempo não está a favor do Brasil.

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