O paraíso de Hugo Mãe e Nino Cais

Na década de 1930, Drummond publicava no poema A quadrilha alguns pensamentos sobre o amor e as condições cívicas e sociais que o envolvem, se não, limitam-no. Nele, no poema, talvez também no poeta, havia uma clara incoerência entre as expectativas sentimentais das pessoas e a realidade. “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/ que (…)” corta o barato de todo mundo.

Um poema que trata, em um plano mais profundo, sobre um princípio quase tão antigo quando o próprio sentimento do afeto: a ideia de que é preciso o outro para existir alguma coisa parecida com o amor. Sozinho não há jogo, essa é a máxima. Mas e quanto a quem joga?

No dia 6 de novembro, o escritor português Valter Hugo Mãe lança pela Cosac Naify um livro infanto-juvenil que fala justamente sobre casais e afeto, em uma clara alusão à famosa frase de Jean-Paul Sartre “o inferno são os outros”, Hugo Mãe intitulou seu último trabalho de O paraíso são os outros.

A obra é considerada uma releitura de um fragmento do recente A desumanização, onde a narradora também é uma menina de pouca idade que questiona as grandes questões humanas: amor, morte, solidão, apego e, sobretudo, as formas de afeto. A personagem de O paraíso são os outros interroga a necessidade de alguns animais e também dos humanos de terem um companheiro. A protagonista estranha essa carência e dialoga sobre os possíveis encaixes que podem acontecer.

O projeto nasceu de uma visita que o escritor fez ao ateliê do coautor da obra, Nino Cais. O artista elabora um trabalho de resgate de fotografias de casamento antigas e faz colagens de pedras de plástico no rosto dos casais retratados. A ilustração do livro fica por conta de seis dessas imagens, e as figuras tornam-se complementares para a narrativa. “Pensei nessa ideia de preciosidade, de permanecer e/ou viver ao lado de outro”, explica Cais sobre as colagens.

Hugo e Cais demonstram com O paraíso são os outros o desejo da companhia em todos os seus possíveis arranjos, quase como nos versos de Drummond; com o diferencial de que João poderia amar Raimundo e ao mesmo tempo Teresa, Maria teria um caso com a Lili da firma, e Lili, por sua vez, continuasse indiferente a todos eles. Releituras e mais releituras de um assunto antigo e ainda assim nunca ultrapassado – o esforço sincero de repovoar o vazio enroscando uns dedos na mão alheia, seja ela, macia, peluda, da firma ou platônica.

Deixe uma resposta