O urgente em cena pela Companhia Galpão

De que maneira reagir ao mundo da forma como ele se apresenta hoje para nós? Qual é o gesto que poderia ser feito em relação a isso, o gesto que você fazia diante da situação atual? Você ficaria imóvel, irado, impotente, militante, satisfeito? Você é capaz de criar um gesto seu agora em resposta aos acontecimentos?

Por meio da dificuldade dessas respostas, o diretor Marcio Abreu instiga o grupo Galpão para a montagem do espetáculo Nós em cartaz até dia 11 de setembro, de quarta aos domingos na unidade Sesc Consolação em São Paulo.

Há tempos havia o desejo do diretor em trabalhar com o Galpão e vice-versa, se não houve oportunidades anterior foi por questões de agenda. Porém, de dois anos para cá, conseguiram se reunir e levantar o material que daria vida ao espetáculo Nós. Trata-se de uma dramaturgia política e fundamental para o momento sombrio pelo qual enfrentamos.

Marcio Abreu ambicionava levantar um ato político, e o Galpão, desde os finais dos anos 80, prioriza o resgate de questões da sociedade brasileira. Sendo assim, a mistura não poderia ter dado mais certo. Em Nós, vê-se um espetáculo reflexo do tempo político atual; da consciência do que é uma democracia, da capacidade de comunhão, dos abusos de poder e da aflição de vivenciar todos os dias as mesmas injustiças sociais, como faixas de um disco riscado incessantemente tocado e interiorizado em nossas vidas.

O grupo Nós desarticula essa “normalidade” e leva o espectador a enxergar dinâmicas ampliadas em uma refeição-metáfora sobre convivência e partilha. No enredo, se é que se pode dizer que há um enredo, os atores preparam uma simples sopa e nesse ato Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia e Paulo André fornecem à icônica Teuda Bara os artifícios para que protagonize o espetáculo.

Teuda Bara rouba a cena e cola, com sua presença monumental, uma verossimilhança impressionante para a situação apresentada. No preparo de uma refeição, os espectadores são capazes de associar figuras de presidentes, congressistas, alienados, perdidos, minorias, elite e tudo que a imaginação permite. Essa é a intenção maior do grupo – criar significações livres-, uma vez em que o importante não é bem o que se diz, e sim a maneira como se diz.

Um mostra da necessidade e das dificuldades de conviver com as diferenças, um teatro político sem discursos e partidos. A peça Nós não aponta nem culpados, nem soluções, apenas exibe o funcionamento da máquina e o que ela fabrica em matéria de sociedade.

Um exemplo certeiro de como a arte pode acordar o povo de uma alienação ou talvez da desesperança profunda. Um teatro urgente e necessário, uma obra de arte manifesto.

Onde:

Sesc Unidade Consolação.
Rua: Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo.

Em cartaz de quarta a domingo.

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