O machismo não é ignorância


Caiu-me nas mãos um ensaio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie chamado Sejamos todos feministas e, ao lê-lo, confesso – eu não imaginava que o caminho contra a opressão feminina e também de mim mesma, Flavia e mulher, fosse tão longo e sinuoso. Apesar de sentir na pele a opressão do machismo, desconhecia o quão longe eu estava de me tornar de fato uma feminista.

Chimamanda registrou situações ordinárias de sua vida, onde prevalecia uma distorção na equidade e significação dos sexos, uma vez em que o seu gênero dizia mais como ela deveria ser do que realmente quem ela era.

E foi seguindo o exemplo dessa escritora que eu tomei coragem para trazer uma ocasião da minha própria realidade, um acontecimento pequeno e discreto, comparado às proporções do que o machismo é capaz, porém acredito fundamental para compreender as sutilezas dessa ferramenta ideológica de submissão.

Eu visitava uma reforma na casa do meu companheiro quando ele resolveu me apresentar para os dois empregados encarregados do serviço. “Oi, essa é a Flavia, Flavia esse é o fulano, esse é o ciclano”. Até ali, a praxe das apresentações…

Os dois homens, à vista disso, responderam ao meu cumprimento sem olharem na minha direção e permaneceram por todo o transcorrer da conversa disfarçando a minha presença. Os empregados não apenas não se dirigiram a mim, como também as perguntas que me diziam respeito perpassavam o meu companheiro, um exemplo; “a moça sabe que você toma cerveja”?

Mais tarde, eu comentei com o meu parceiro sobre o acanhamento dos dois em relação à minha presença, e ele justificou aquela conduta contextualizando as origens regionais e sociais daqueles sujeitos, e acrescentou; a maneira como se comportaram foi uma forma de demonstrar respeito.

Do ponto de vista do meu parceiro, ele foi respeitado. E mais, naquele momento, quando eu e meu companheiro conversávamos, eu gostei de terem respeitado ele, sem ao menos dar-me conta de que eu perpetuava a aceitação de um comportamento que, sobremaneira, desrespeitava a mim; porque me excluía de ser um indivíduo livre e autônomo no âmbito social.  Em outras palavras, eu me senti confortável na posição de propriedade de um homem e nem me toquei.

Foi uma situação claramente machista por parte de todos nós, apesar de nenhum dos quatro terem percebido a minha castração naquela conduta, inclusive eu, a pessoa “domesticada”, e talvez, por isso, por estar tão acostumada com esse tipo de abordagem, mantive-me complacente diante daquela dominação e feliz pelo meu dominador.

Ainda que a terminologia seja conhecida: feminismo é um movimento social, filosófico e político que objetiva a libertação de homens e mulheres dos padrões opressores patriarcais, baseados em norma de gênero, etc, etc; identificar os lastros da opressão em meu cotidiano e nas minhas condutas não está sendo nada fácil.

E, a despeito de toda a dificuldade, de maneira ainda obscura, o meu apontamento em mim dos ranços do machismo torna-se absolutamente libertador e, mais do que nunca, vital para o meu entendimento do que é ser efetivamente uma feminista.

A mentalidade machista está tão soterrada em nossa conduta, refiro-me ao modo operante da sociedade em geral, que a castração circula pelos caminhos mais imprevisíveis como, por exemplo, em mim, mulher, esclarecida e teoricamente emancipada.

Portanto é ingenuidade nossa encarar o machismo como uma mera falta de esclarecimento, uma ignorância. O machismo não é uma ignorância, pelo contrário, ele é um sistema sofisticadíssimo e milenar de dominação de um gênero sobre o outro.

Se considerarmos esse traço cultural perverso um mero caso de inconsciência, não só subestimamos a fera, como também deixamos que ela se perpetue, não apenas através de homens monstruosos, mas por meio de vias das mais cruéis, e eu me refiro ao nosso íntimo.

Depois de Chimamanda, eu escolhi seguir com ela. E como ela tão bem propõe para homens e mulheres: sejamos todos! feministas.

2 respostas para “O machismo não é ignorância”

  1. Paula disse:

    nossa… forte a reflexão! meses atrás parei para pensar justamente nisso ao instalar uma cortina aqui em casa – esperando que fosse um homem que o fizesse, e não eu. sei lá, pra pensar! adorei a referência do livro!

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