O insensato mundo das insensatas interpretações

No dia 2 de janeiro deste ano, o Ministro do Interior e príncipe herdeiro, Mohammed Bin Nayef, pronunciou-se em rede aberta sobre a execução de 47 prisioneiros condenados pelo envolvimento com grupos terroristas; em outras palavras, no segundo dia do ano, a Arábia Saudita decapitou e fuzilou 47 presos políticos. O país não ordenava uma sentença de morte dessa magnitude há 30 anos.

Entre os condenados havia quatro homens xiitas, e um dos quatro tratava-se do clérico Mimr Al Mimr, reconhecido pela sua oposição pacífica contra as austeridades da monarquia e persona símbolo da minoria 15 por cento xiita do país. De acordo com a Anistia Internacional, as mortes são condenáveis; pois não existiam provas concretas da conexão entre os prisioneiros e facções terroristas, e especula-se que a sentença seja uma demonstração de poder contra os opositores do regime.

A execução em massa e principalmente de Mimr Al Mimr desencadeou protestos violentos em diversos pontos do país e a invasão da embaixada saudita em Teerã; além de acirrar as frágeis relações internacionais no Golfo Pérsico, uma vez que Mimr Al Mimr tornou-se o mártir xiita morto pela maioria sunita.

O Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pronunciou neste domingo, dia 3, o seu pesar pelas execuções e pediu cautela aos países ofendidos. Em contrapartida, no mesmo dia, Riad rompeu as relações diplomáticas com Teerã e na segunda-feira, dia 4, Bahrein e Sudão aliam-se ao califado saudita. A decisão do estado insuladar Bahrein foi tomada alegando a “ingerência perigosa” do Irã nos assuntos do país e das demais nações do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Apesar da maioria populacional xiita nas ilhas de Bahrein, a monarquia é sunita. Na terça-feira, o Kuwait também fechou a sua embaixada no Irã.

Na atual conjuntura, mais se fala da indisciplina do Irã em relação aos protestos do que a morte do homem inocente por uns e culpado por outros, o clérico cuja morte suscitou a indignação e a revolta da parcela xiita da comunidade islâmica.

Sobre homens serem meras figuras representativas de ódios seculares não nos faltam exemplos na história; logo, no segundo dia do ano, esse insensato mundo de insensatas interpretações de mandamentos divinos nos apresentou mais um títere para assuntos de natureza obscura. Em 2016, Mimr Al Mimr se tornou mais um mártir injustiçado: primeiro, pela retirada de sua vida sem provas concretas e, segundo, por fazer dele um mote para a retomada de antigas disputas religiosas.

O Golfo Pérsico é a região mais valiosa na extração de petróleo do planeta. Portanto, além do fundamentalismo religioso de duas correntes do Islamismo, existem os bons e velhos interesses econômicos, que se não subjuga por completo o discernimento do homem pelo menos o influencia. De que vale, afinal, a justiça, a fé e a vida de um sujeito comparados com um bom bocado do vil e velho ouro negro?

Hoje, fala-se mais em crise diplomática e preço do barril de petróleo ao invés das execuções descabidas, ao invés do militante morto; e isso reflete em grande e pesarosa medida com o que o mundo realmente se interessa.

Deixe uma resposta