O inimigo predileto

A chegada dos Jogos Olímpicos ao Brasil traz expectativa ao mundo inteiro, como também muita preocupação por parte dos turistas, estrangeiros e nativos, com a segurança do evento. Fala-se em ameaças terroristas contra delegações europeias e norte-americanas e possíveis ataques contra expectadores; porém, nenhuma especulação ou suspeita teve fundamento até agora.

As tragédias em Nice, na França, as bombas simultâneas na Bélgica e o caso da boate GLBT, nos Estados Unidos, citando os maiores dos últimos meses, esses episódios criaram o cenário ideal para a disseminação do medo nos jogos. Apesar de o Brasil não estar no alvo de facções criminosas, por assim dizer, islâmicas; a repercussão mundial das Olimpíadas e as condições estruturais do país criam um ambiente para lá de favorável para um atentado. Ainda assim, é necessário cautela nesse pavor contra grupos radicais terroristas islâmicos. O medo de atentado é coerente. No entanto, ele pode vir a ser manipulado aqui tanto quando fazem no estrangeiro.

No dia em que foi noticiada a descendência tunisiana do homem responsável pela morte de 84 pessoas em Nice, o presidente François Hollande declarou publicamente guerra contra o Estado Islâmico (EI), ainda que não haja certeza sobre a autoria de alguma facção do EI no atentado. É comum o EI assumir a autoria em alguns acontecimentos não planejados por ele para demonstrar força e popularidade. Hollande tem se aproveitado da paranoia francesa para angariar eleitores nas próximas eleições, o mesmo se vê em discursos do conservador norte-americano Donald Trump. Em contrapartida, a Alemanha de Angela Merkel pede cautela e assume uma postura diplomática com a ameaça “muçulmana”.

São discursos que refletem a postura desses mesmos países na coalizão militar selada em 2014 para derrotar o Estado Islâmico na Síria e Afeganistão. Enquanto Alemanha aparentemente preza pelo assistencialismo e pela diplomacia, França e Estados Unidos investem em retaliação militar aos terroristas.

O termo “terrorismo” é extremamente controverso. Há tanto contrassenso sobre uma definição comum sobre o que ele significa, com exceção do caráter violento, que nem as Nações Unidas conseguem delimitar as características de quem seria um terrorista inquestionável.

No consenso geral, é um sujeito que está contra o status quo e faz uso de violência em sua luta; entretanto, há casos onde é o Estado o próprio agente antidemocrático e violento. Lutar contra uma situação de nepotismo poderia também se enquadrar em terrorismo?

Voltemos ao caso da ativista Elisa Quadros, conhecida por Sininho, acusada de planejar supostos ataques violentos nas manifestações de 2013, tachada de terrorista e condenada por terrorismo, sem nem ter cometido crime nenhum.

É aceitável um Estado que condena antes do crime? É terrorista quem questiona os abusos desse governo?

Vale lembrar, é importantíssimo identificarmos bem onde se encontra o terrorismo e de que forma o Brasil pretende combatê-lo. Uma vez tomado um caminho equivocado, podemos deslizar por legislações perigosíssimas e prejudicar quem luta aqui mesmo por melhorias sociais.

Especialmente em tempos de medo e holofotes estrangeiros, o Estado sabe e muito bem tirar proveito do inimigo.

Deixe uma resposta