O discurso de ódio de cada dia

A maneira como consumimos e absorvemos a informação mudou. Já não nos informamos através da grande mídia e sim pelos próprios internautas. E essa passagem do modelo de divulgação para o modelo de circulação sinaliza uma veiculação mais participativa e diversificada. Porém, num cenário onde tudo se vê, opina e compartilha, como deter manifestações de ódio ao próximo? Como saber se também não estamos propagando preconceitos enraizados em nosso círculo social, e ainda, quais são os critérios de censura para as narrativas consideradas perigosas?

Regulamentar o que se diz e como se diz sem ferir o Direito Fundamental de Expressão é a grande premissa para a construção de uma rede saudável e cidadã para todos. No entanto, o que seria de fato um discurso de ódio?

De acordo com o Conselho da Europa, o discurso de ódio é definido como: “qualquer expressão que espalhe, incite, promova ou justifique ódio racial, a xenofobia, o antissemitismo e qualquer outra forma de intolerância, incluindo a intolerância causada por nacionalismo agressivo e etnocentrismo, discriminação e hostilidade contra minorias, migrantes e pessoas de origem estrangeira”.

Um caso curioso e que vale o olhar crítico foi a comoção nas redes sociais com o atentado ao jornal Charlie Ebdo. De um dia para o outro, milhares de internautas liberais, bem-educados e politicamente corretos colocaram a mensagem Je suis Charlie em suas fotos de perfil, apesar de que, pelos critérios do Conselho da Europa, Ebdo poderia ser enquadrado como um propagador de ódio; afinal, Ebdo é famoso pelas sátiras xenofóbicas às minorias imigrantes, como também ao desrespeito pela religião muçulmana. Apesar de um ato terrorista nunca ser justificável em hipótese alguma.

Se de um lado podemos nos unir contra as narrativas evidentemente erradas, de outro podemos estar compactuando com nossos próprios preconceitos inconscientes e criando, dentro de uma bolha de opiniões parecidas as nossas próprias, convicções de certo e errado segregacionistas.

Por um lado, a internet possibilita o acesso aos dois lados de uma história. Por outro, ela mobiliza o usuário de acordo com a sua predileção. Afinal, as grandes intermediárias da comunicação são empresas que visam lucro e sobrevivem pelo agrado dos ouvidos e olhos dos seus usuários, que geralmente não gostam de serem contrariados. E essa é uma realidade que nos escapa quando estamos completamente submersos e dependentes das redes sociais e das plataformas de pesquisa.

Nem todos os fomentadores de preconceitos são sujeitos convictos de que a segregação é a melhor escolha de conduta. Muitos usuários hoje em dia sentem uma dificuldade real em diferenciar uma matéria noticiosa de outra apenas opinativa, uma imagem verídica de uma montagem fotográfica e assim… uma rede de fatos distorcidos é capaz de mudar a opinião de um leitor por mais bem-intencionado que ele seja e esteja sobre determinada questão.

O caso Homer

Em uma cidade no Alaska chamada Homer, situada na última paragem da civilização norte-americana, uma associação de moradores reuniu-se para decidirem se a cidade era amistosa à vinda de estrangeiros refugiados ou não. Apesar daquele lugar ser o destino mais improvável para qualquer recém-chegado estrangeiro e evidentemente aquele não ser um problema verídico para a comunidade.

Ben Tyrer, um cidadão esquivo a discussões e bem-intencionado, por fazer parte da comissão, resolveu informar-se da melhor maneira possível sobre o assunto e levantou uma pesquisa exaustiva de prós e contras sobre imigração de refugiados em países ricos, tomando como exemplo o fenômeno na Europa. Depois de ler e reler páginas e mais páginas na internet e de ponderar por dias os perigos da vinda de imigrantes na cidade, Ben concluiu que os imigrantes eram perigosos para a pequena e pacata Homer.

Mais tarde, depois da pesquisa ganhar notoriedade na mídia, um jornalista profissional auxiliou o morador a digerir toda aquela informação e expôs um problema que parece óbvio, mas que não é tão evidente assim. Ben foi sugestionado a pensar o assunto a partir daquilo que ele já estava propenso a acreditar. Ben sentia medo, e os artigos lidos fomentavam esse medo.

As grandes transmissoras e detentoras da informação, empresas como Google, Facebook e Twitter, estão cientes do perfil dos seus usuários e sabem como encaminhá-los para o ponto de vista mais confortável com a sua realidade de mundo. Por mais que um sujeito se empenhe em furar a sua bolha, ele ainda transita dentro de uma rede privada e obscura.

Se nem mesmo os Direitos Humanos Universais são universais ao ponto de acolher toda a diversidade do planeta, como mantermos uma posição ética em relação a uma situação às vezes tão longe de nossa realidade? Como agir para informar-se? E ainda, como combater uma ideia contrária quando ela se apresenta em nossa timeline?

Especialista em discursos violentos na internet, Susan Benesch, depois de dois anos de pesquisa, conclui que a empatia e o diálogo são as melhores ferramentas de ação contra a agressividade, uma empatia que deve inclusive ser direcionada ao agressor, por mais complicado que isso possa parecer. De acordo com ela, a chave é o diálogo.

A pesquisadora alerta que o contra discurso e a correção de dados pode causar evasão e desconfiança por parte do receptor e afirma que, pela amostragem dos dados coletados, o humor e recursos gráficos de fácil compreensão parecem ser as estratégias de sensibilização mais efetivas para de grupos e usuários hostis contra a diversidade de pensamento. Em outras palavras, o método é solicitar o diálogo por mais surdo e odioso que o interlocutor possa parecer.

Hoje, estamos longe de remediar as contraindicações da era digital, porém, de acordo com a sabedoria popular, ninguém há de discordar, tolerância e canja de galinha, mal não há de fazer, não é mesmo?

Uma resposta para “O discurso de ódio de cada dia”

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