O corpo web

A maneira como nos relacionamos, seja no trabalho ou no âmbito privado, mudou completamente com o uso das redes sociais. Sem exceção, todos nós usamos a web 24 horas por dia nos sete dias da semana. Uma realidade jamais imaginada antes da década de 70. Com essa evolução, será que compreendemos o que mudou no contato humano? De que forma devemos nos sentir diante de tantas e tão rápidas transformações?

Nossa imagem nos representa na linha da nossa vida projetada, a “timeline”, e essas fotografias, editadas e pensadas por nós, substituem a nossa presença física, nem sempre amistosa e descansada no cotidiano como no “perfil”. As mensagens de texto, vídeo e áudio possibilitam, inclusive, um piloto automático das obrigações sociais quando estamos desempenhando outras atividades, como por exemplo, enquanto dormimos. Ou seja, nosso vídeo ou fotografia dialoga com uma quantidade imensa de pessoas que podem estar em qualquer parte do mundo, sem, ao menos, darmos conta disso dessas interações. O controle do que se mostra e como se projeta, as distancias físicas, a necessidade do concreto, quase tudo foi bombardeado pela capacidade de conexão mundial pelas vias digitais. E a pergunta que paira é: onde estará a relevância do corpo concreto para nos relacionarmos uns com os outros?

Pensemos, as definições tradicionais de corpo são: uma massa que ocupa o espaço de acordo com as leis de Newton e um conjunto de sistemas orgânicos revestido de pele. Porém, a tecnologia implodiu a noção de espaço ao desterritorializar a experiência corpórea. Hoje, existem sim dois corpos no mesmo espaço, aliás, existem milhões deles, e para haver uma relação social, o corpo físico tornou-se dispensável.

No enquanto, nós ainda lidamos de maneira um tanto confusa com essas inovações. Constatamos a formação de uma rede mental que imediatiza distancias gigantescas em segundos, porém ainda não sabemos reconhecer o que, nessa trama, é real ou ficção, as chances de uma má interpretação do que se vê e se ouve são enormes, afinal ainda não temos uma lucidez das situações no mundo virtual.

Pessimistas apregoam uma humanidade futura sedentária e zumbificada em frente a uma tela de computador, muito semelhante à representação do filme Wall-E, apesar dos movimentos de flash-mob entre desconhecidos e redes de relacionamento (tinder, grindr, happn) possibilitarem encontros reais, inclusive matrimônios.

Não podemos nos esquecer que o nosso corpo é uma máquina em prontidão para qualquer mudança evolutiva necessária; perdemos os caninos com a descoberta do fogo, logo não teremos mais o dente do siso, com certeza, exemplos distantes, porém com uma conexão peculiar; nosso corpo tende a se adequar ao ambiente social. Nesse sentindo, é possível supor que nossos sentimentos e percepções se adaptem também com o novo formado abstrato de se relacionar.

Enquanto refletimos a passo de formiga nossa significação no mundo em corpo presente, a tecnologia voa à velocidade da luz e transforma inclusive a própria noção de espaço onde estaria o nosso corpo.

Tantas mudanças, tão rápidas, são de tirar o chão de qualquer um. Ou seria o próprio chão, como o entendemos, uma outra questão completamente defasada, hoje, como ponto de referência?

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