O convite de La Bête

No dia 10 de setembro, o Santander Cultural de Porto Alegre suspende a mostra Queermuseu, depois de ameaças de boicote ao banco. No dia 16, do mesmo mês, a Justiça de Jundiaí proíbe a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Ao mesmo tempo, a adaptação teatral do livro foi taxada de “peça gay para crianças” e precisou articular-se para evitar a censura. Internautas se mobilizam para proteger a moral e os bons costumes cristãos. E a política e as empresas respondem a esse eleitorado/consumidor com fechamentos e pedidos de desculpa públicos. Bom, até aí, nada de novo sob o sol.

No entanto, nesse último mês vimos as coisas descambarem quando, na terça-feira do dia 26, na abertura do 35º Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), o artista Wagner Schwartz apresentou a performance La Bête.

A imagem de uma criança pequena encostando a mão no tornozelo do artista nu viralizou. E o performer foi acusado de molestador em conchavo com o público presente e os organizadores da mostra. O curioso, nesse caso em especial, é observar como o relato de todas as pessoas presentes na performance, inclusive o testemunho da mãe da criança, foi ignorado a partir de uma imagem sensacionalista sobre o acontecimento.

E ainda mais sintomático, no dia 1 de outubro, uma notícia falsa a respeito do assassinato do performer a pauladas foi divulgada pelas redes sociais, e muitos internautas felicitaram o crime.
Funcionários do MAM foram agredidos, e o artista  resguardou-se da mídia temendo pela sua integridade física após a veiculação do seu suposto assassinato.

A intransigência está atropelando o diálogo e silenciando propostas artísticas com mais força hoje do que nos últimos anos, mas por que agora?

Solange Dias, diretora, atriz, dramaturga e arte-educadora, foi responsável por adaptar o livro infanto-juvenil A Princesa e a Costureira para o teatro, e recentemente sentiu o baque do preconceito sobre seu trabalho. Ela comenta: “a gente vive um momento muito calcado em cima de opiniões, principalmente a partir das redes sociais, que são muito úteis em vários sentidos, mas que generalizam as coisas”.

A artista observa que estamos perdendo a oportunidade de pensarmos com profundidade acontecimentos e questões humanas muito complexas: “uma arte, uma exibição, uma peça de teatro, ela é propositiva, ela é questionadora.

Claro, as pessoas não têm obrigação nenhuma de gostar.” E alerta: “o problema é quando um grupo proíbe outras pessoas de ter acesso a essa obra, esse é o problema. Isso é censura”.

Uma sociedade democrática é sobretudo aquela onde estão presentes e sempre em choque diferentes pontos de vista. Por mais capenga que possa parecer a brasileira, estamos sim em um modelo de gestão política onde todos têm o direito a uma opinião. Porém, de que forma evoluirmos em direitos humanos e deveres se nós nos colocamos fechados em verdades incontestáveis?

De acordo com o ensaio do filósofo britânico Julian Baggini, publicado pelo Nexo, nós nos informamos no melhor dos casos através de especialistas, que se informam por outros especialistas, em uma fila indiana onde tendemos a procurar valores semelhantes ao nosso. Sendo assim, se um pastor ou um articulador de manchete diz algo que condiz com as crenças do usuário, pouco adianta a contra argumentação de testemunhas.

Para nos precavermos dessa unilateralidade, muitas vezes inconsciente, o filósofo faz três perguntas: existe algum especialista nessa área? Se existe, que tipo de especialista se deve ouvir? E ainda, que especialista vale ouvir no caso em especial?

Baggini também alerta que nunca devemos nos redimir da responsabilidade de propagar um ponto de vista, ainda que ele seja o argumento de alguém considerado por nós um sujeito entendido do assunto.
Solange Dias acredita que a melhor maneira de enfrentar a onda moralizante sobre a arte é continuar trabalhando de maneira séria e profunda com a produção artística.

O fazer artístico é por natureza um elemento estético que, se bem-sucedido, ele proporciona uma experiência ao público. E é por meio dessa experiência que o público é incitado a refletir sobre o que está sendo dito e mostrado.

A artista aconselha: “é continuar em campo, é trabalhar com arte e manter-se em contato com as pessoas. Vejo que é o único caminho para a gente sair desse tempo de ódio sem sentido é continuar a fazer o que estamos fazendo”.
Ou seja, a arte, por mais controversa que possa parecer, ela é e sempre será um convite ao diálogo, uma maneira diferente de se olhar o mundo, portanto, é um elemento transgressor porque está aí para modificar nossa compreensão sobre o mundo.

Não por menos, grupos afeitos a deixar as coisas como estão ou como eram, eles se incomodam. E isso é excelente, se por acaso, esse incômodo leve eles a um movimento de reflexão.

O duro é quando agride, ameaça, fecha, proíbe. Aí, é censura.

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