O cerco circo ao redor de Lula

A condução coercitiva de Luís Inácio Lula da Silva para prestar depoimento, autorizada pelo juiz Sergio Moro, na manhã de sexta-feira foi mais um capítulo da operação Lava Jato. Menos pela ação da polícia federal do que da própria mídia, a entrada dos federais no apartamento de Lula em São Bernardo do Campo foi um espetáculo circense, com direito à plateia de jogo de futebol gritando aos tapas.

De acordo com o despacho emitido pelo juiz, a condução coercitiva foi aprovada diante da justificativa de que o último depoimento de Lula no fórum Barra Funda, em que o ex-presidente marcou um horário para depor, militantes fizeram protesto e causaram tumulto. Para evitar enfrentamentos entre polícia e manifestantes, optou-se por levar o ex-presidente coercitivamente em horário surpresa.

A mídia preparou o circo, já notificada da ação da polícia. Qualquer manobra de interesse político é vazada com antecedência para a mídia, sem questinamento sobre como a Globo chegou quase junto com os federais na casa do petista.

População confunde prisão com depoimento, com depoimento coercitivo, com acusação, com culpado e com inocentes. Até que se prove o contrário, todos os réus da Lava Jato são inocentes, e Lula não é nem mesmo réu.

Na tarde de sexta-feira, Dilma Rousseff defendeu-se das acusações de Delcídio do Amaral, ex-senador petista que negociava delação premiada, quando seu depoimento foi estranhamente descoberto e publicado pela revista Isto é. A população brasileira parece pouco entender dos trâmites, legalidades e consequências de cada ação da polícia, menos ainda compreendem o que um processo de impeachment sem provas de um presidente eleito pode trazer para a democracia ainda bastante jovem do Brasil.

Na noite da sexta-feira, pessoas de várias cidades do Brasil bateram palma na abertura do Jornal Nacional, quando William Bonner começou o noticiário sobre o depoimento de Lula na polícia federal. Essas pessoas foram as mesmas que se recusaram a ouvir a presidenta durante a tarde em rede nacional, ao bater panelas nas janelas de seus apartamentos antes das 18 horas da tarde de um dia de semana. Em um mesmo dia, protestaram contra o governo eleito e heroicizaram uma rede de televisão envolvida com a ditadura militar no Brasil.

Dia 04 de março foi o dia em que a mídia virou o herói do povo brasileiro. O problema é que nesse circo não tem pão.

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