O Brasil saiu do muro

O Brasil está confuso. Politicamente, isso não é novidade, mas agora há falta de clareza e incerteza quanto às marchas contra o golpe, porque num raro momento da história do país as manifestações possuem bandeiras diversas e a aceitação plena de partidos e políticos marchando lado a lado. 

Os protestos contra o golpe silencioso do Congresso são encabeçados por coletivos e pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), apoiados pelo MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), pela Juventude do PT (Partido dos Trabalhadores), pelo Juntos – movimento jovem nascido do PSOL (Partido Socialista) -, entre outras organizações que carregam suas bandeiras. E o interessante: não há problema algum nisso.

A característica em comum de todos é que são movimentos de esquerda que pedem por eleições gerais. Diferente dos caras pintadas de 1992, as multidões não possuem uma identidade visual comum, pelo contrário, são negros, brancos, gays, transexuais, petistas, comunistas, socialistas. Talvez, diria Reinaldo Azevedo, toda a corja do mundo encontrou-se em frente ao Masp.

As grandes marchas de 2013, lideradas pelo MPL (Movimento Passe Livre), contra o aumento da tarifa, não aceitavam partidos ou bandeira, havendo hostilização quando alguma era erguida. Falava-se em movimento horizontal e apartidário, em que o slogan do Jonny Walker perpetuava no Facebook – o gigante acordou.

Os protestos de agora parecem ter amadurecido para a possibilidade de que diversas bandeiras convirjam em um mesmo pedido, sem a necessidade de se esconderem atrás de camisetas da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). O brasileiro tomou partido, vestiu a sua própria camisa e foi pedir pelo que considera justo ao lado se outras 100 mil pessoas pertencentes a outros partidos e lutas.

O brasileiro enfim saiu do muro e fez escolhas políticas. As marchas atuais são forte exemplo de democracia por aceitarem a diversidade lado a lado em prol do mesmo pedido e da mesma afirmação, contra o golpe e a favor de novas eleições. Isso a fortalece, pois nela há política e há bandeiras, coisa que o brasileiro tinha esquecido e no meio do esquecimento acordou com um Congresso conservador, corrupto e teatral, sustentando uma frágil democracia.

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