O amanhã de Feyisa Lilesa

As Olimpíadas 2016 foram marcadas por surpresas impressionantes e positivas diante do que se esperava. Não houve ataques terroristas, nem casos de violência, – o que houve foi mentira-, muito menos prédios desabado em cima de turistas, como se previa. Apesar dos contratempos iniciais, nada realmente atrapalhou a realização dos jogos e, de modo geral, a Olimpíadas no Brasil foi um sucesso.

Nessa edição do evento, a tocha olímpica foi a menor fogueira de todas as aberturas anteriores pelo alerta sobre o aquecimento global e vimos, também como novidade, uma delegação de atletas composta somente por refugiados.

A reverberação mundial do evento também deu margem para o atleta etíope Feyisa Lilesa, medalha de prata no atletismo, fazer um emblemático gesto de cruzar os braços acima da cabeça. Uma maneira de protesto da etnia Oromo a qual ele pertence.

Os Oromo são pastores nômades que habitam as regiões próximas da capital da Etiópia, a cidade de Adis Abeba, e, atualmente, esse povo enfrenta fortes contravenções do Governo etíope. A expansão do espaço urbano vem desabrigando tribos rurais nômades que habitam os arredores da cidade.

Lilesa fez o primeiro gesto poucos metros depois de ter cruzado a linha de chegada e depois durante a coletiva de imprensa. Apesar de ter sido repreendido pelo Comitê Olímpico, gestos políticos não são permitidos nos jogos, o atleta alegou não ter escolha senão mostrar ao mundo os problemas de sua terra natal.

Um crowdfunding coletou mais de 35.000 euros (cerca de 127.000 reais) para ajudá-lo a encontrar um novo lar. Ele, por sua vez, teme que sua mulher e seus dois filhos já tenham sido presos. “Em nove meses mataram mais de mil pessoas em manifestações”- disse o atleta, e por causa do ato de protesto, ele teme deixar o Brasil e ser preso ou executado na Etiópia.

No período após a queda da monarquia, a Etiópia transformou-se em um dos países mais pobres do globo e sofreu trágicos períodos de fome na década de 1980, resultando em milhões de mortes por inanição.

Lentamente, o país começa a se recuperar, e hoje a economia etíope é uma das que mais crescem na África em um acelerado processo de industrialização. Várias organizações internacionais denunciaram violações dos direitos humanos no tratamento dispensado aos Oromo e salientam que o país está agora na situação mais instável de toda a década.

E agora, será que o espírito olímpico de solidariedade perdura com o fim dos jogos? Será que o mundo ainda se lembrará de Feyisa Lilesa e seus filhos? Ou, por causa do dinheiro arrecadado, o caso pode se dar por resolvido? Afinal, o que aprendemos com os jogos?

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