Numa semana Ubaldo, noutra Ariano

João Ubaldo Ribeiro foi-se desse mundo no dia 18 de julho, uma sexta-feira, véspera de fim de semana. Ariano Suassuna encontrou-o cinco dias depois, em uma quarta-feira, meio de semana. Aquele baiano e este paraibano, apesar de marcarem a literatura brasileira de maneiras diferentes, encontraram semelhanças nas datas de morte. Lá de cima, Suassuna diria que cumpriram sua sentença e encontraram-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

Ariano Suassuna é conhecido em todo Brasil pela peça O Alto da Compadecida, de 1955, que veio a virar filme em 2000. Desde então, João Grilo e Chicó habitam o imaginário de muitos brasileiros. Em Recife, cidade que Suassuna viveria até sua morte, não há vivalma que não o conheça e não fale dele com ares familiares, como se estivesse a contar de um primo ou irmão. Seus personagens possuem as cores fortes da comédia que quebra a aridez do sertão. A Caetana, como chamava a morte, finalmente chegou, e em sua última aula em vez de dizer, como de costume: “Eu não vou morrer, eu me escondo da Caetana.”, ele disse apenas: “Eu sei que vou morrer, mas meus personagens ficarão todos com vocês”. E ficaram aqui, vivos, esses sim capazes de fugir da Caetana, pulando da mente de um para a cabeça do outro.

João Ubaldo Ribeiro gostava de futebol e Itaparica, onde nasceu. Dizia que só se desligaria dali, quando morresse. Caro escritor, talvez nem assim, porque se for por vontade da gente brasileira, você continua vivendo eternamente por aqui, morando em prateleiras de todas as formas. Famoso pelos livros Sargento Getúlio, A casa dos Budas Ditosos e Viva o Povo Brasileiro, Ubaldo levou a história brasileira para seus livros. Em suas obras, seus pés mantinham-se firmes na Bahia, mas corpo e mente iam além das fronteiras do estado, e representavam todo o povo.

Não deixam saudades, porque continuam por aqui. Dois personagens da vida que escolheram viver pra sempre em forma de letra. Estão em todos os lados, na boca da gente do Recife, da Bahia, do Brasil e do mundo. Dizem que uns morrem para outros nascerem, e estão nascendo os novos escritores brasileiros. Se se igualarão em grandeza com João e Ariano? Não sei, só sei que é assim.

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