Nuances do matrimônio contemporâneo

Na era do amor líquido de Bauman e na atual crise econômica, o brasileiro garante o rendimento de 13,7 bilhões de reais no mercado das cerimônias matrimoniais. Encontramos vestidos de chocolate branco com medidas tamanho real, bafômetros indicativos para a arrecadação da gravata, Buffet temáticos, cobertura midiática em tempo real; o possível e o impossível para o dia inesquecível dos noivos. E a pergunta que paira é: por que, apesar de todos os exemplos e indícios de que a união eterna pode não funcionar, ainda prezamos tanto pelo dia memorável?

O casamento surgiu como uma forma de aliança política e econômica entre agrupamentos humanos desde os tempos primitivos do homem e foi preservado em sua formação estritamente estratégica por toda a era medieval, atenho-me à civilização ocidental.

Antes da expansão do poderio cristão, os casamentos eram arranjados pelos pais dos noivos e, quando havia qualquer interferência religiosa, o padre abençoava os noivos apenas na porta do quarto, minutos antes da noite de núpcias. Mais tarde, a religião começou a intermediar as relações conjugais com mais autoridade e surgiu a ideia de comunhão sagrada.

Apesar do apóstolo Paulo na epístola aos coríntios (I Cor., VII, 1) condenar o pecado da carne, inclusive entre marido e mulher: “que cada homem tenha uma mulher e cada mulher um homem, melhor seria que ficassem castos, mas se não podem se conter, casem-se”; a medida não colou por muito tempo; uma vez que o propósito principal da união estável sempre foi a reprodução de herdeiros.

A igreja se retratou nas proibições e adequou o ato sexual apenas para fins reprodutivos. Afinal, o celibato seria pedir demais do bom cristão.

Por muito tempo, o casamento serviu como um freio da religião aos libertinos. Qualquer forma de prazer sexual além dos fins reprodutivos, assim como ainda se apresenta hoje, é condenável em dezenas de crenças.

A religião aparentemente permanece com a mesma postura em relação ao sexo, e a ideia de bom partido para a família também, então o que poderíamos apontar de novidade em relação ao matrimônio de algumas centenas de anos para cá? Bom, a resposta vem rápida e cafona: trata-se do amor.  Mas, como bom interventor das relações humanas, o amor surgiu como instrumento para um propósito.

Despontando nas estruturas dramáticas shakesperianas e consagrado com a revolução dos valores burgueses em 1789, ele emerge como vontade individual; a livre iniciativa do sujeito burguês capaz de modular o seu próprio destino, independente de hierarquias. Afinal, depois da Revolução Francesa e a ascensão da burguesia, os tempos eram outros; não era de todo errado um nobre apaixonar-se pela filha de um próspero comerciante. Dessa feita, o afeto veio como a cola para, se não substituir os interesses, ao menos perfumar o ritual. Já de lá para cá, muita água rolou.

Surgiram novas maneiras de amar e de se relacionar e a própria estrutura de família foi modificada. Casais optam por não terem filhos, primeiro embate com os dogmas religiosos, a monogamia é afrouxada, surgem práticas como o poliamor e os relacionamentos abertos e, além do mais, em uma sociedade pautada pela livre iniciativa individual, não há coerência em se manter a heteronormatividade matrimonial. Alguns países já adaptaram suas leis jurídicas para tais mudanças.

De acordo com o sociólogo Anthony Giddens em sua obra A transformação da intimidade, ele afirma que a tendência das novas relações é possuir como base a igualdade e os direitos democráticos e o autor se baseia em três premissas: o amor confluente, o qual presume igualdade nas trocas afetivas para a sua manutenção; a sexualidade plástica, advinda dos métodos contraceptivos e, em terceiro, pontua o que chama de relacionamento puro, ou seja, o desejo de desenvolver uma história de vida compartilhada baseando-se no companheirismo, na confiança e na intimidade, aproximando-se bastante da proposta da relação matrimonial, porém por um tempo indeterminado. A diferença substancial está: na saúde e na doença, até que a morte os separe. Para Giddens, a única premissa para o cultivo da relação é a plena satisfação de ambos, além disso, não haveria nada conectando duas ou mais pessoas.

Ainda assim, casais procuram a burocracia religiosa e civil para respaldarem o que pode ao fruto do acaso vir a ser um agravante aos envolvidos.

Mudamos demais ao longo da história, porém ainda não completamente. Uma boa parcela da sociedade ainda precisa da aprovação do coletivo sobre a sua escolha pessoal, o que em muitos casos é um tanto incoerente, mas… Acontece.

O amor talvez seja a melhor e mais deliciosa ilusão burguesa de todos os tempos, e como bons carneirinhos do sistema, acredita-se plenamente no grande amor. Não há problema algum em acreditar. O duro é achar que é verdade.

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