Pelas lentes do antropólogo

Eduardo Viveiros de Castro, um dos antropólogos mais importantes da atualidade, sugere questionamentos sobre a figura do indígena brasileiro. Ele provoca: “todo mundo é índio no Brasil, exceto quem não é. A gente sabe muito bem os que não são. A gente não sabe é quem é”.

Em exibição até o mês de novembro no SESC Ipiranga, a exposição Variações do corpo selvagem é a primeira exposição fotográfica solo de Viveiros. E na função ideal de um bom título, o nome da exibição já antecipa o que o visitante pode encontrar. A mostra sugere, ao expectador atento, registros do que existe de selva no brasileiro e, quando se fala em brasileiro, fala-se de todos nós, um detalhe importante muitas vezes esquecido.

As imagens são feitas aos padrões do fotojornalismo. Sem interferências na cena e nas pessoas registradas, elas transmitem o cotidiano de aldeias indígenas e figuras também indígenas deslocadas do “ambiente natural”, evidenciando a mistura de elementos culturais de uma sociedade de consumo com tradições culturais seculares nas vestimentas e costumes desses indivíduos.

Idealizada pela curadoria de Eduardo Sterzi e Verônica Stigger, a exposição exibe fotografias exclusivas do acervo pessoal de Viveiros e revela, até para a surpresa feliz do fotógrafo, um recorde ainda incipiente do que seria o campo temático das pesquisas do etnógrafo em seu início de carreira, quando a maioria dos cliques foram feitos.

Viveiros de Castro percebeu na curadoria feita para Variações do corpo selvagem um encaixe pertinente entre sua produção textual, sobre a estética do corpo modificado e significador nas cosmologias ameríndias, e as fotografias despretensiosas tiradas ainda nas suas primeiras pesquisas em campo.

Em seus estudos, Viveiros verifica a capacidade ameríndia de usar o corpo para comunicar suas influencias culturais; portanto, de acordo com o pesquisador, o índio que usa chinelo e bermuda Adidas ainda está completamente no direito de se reconhecer indígena. Para o antropólogo, é imprescindível desmistificar a figura do selvagem ideal e desvincular o sujeito fotografado por Sebastião Salgado, em Êxodos, fotografias que mais parecem feitas no século passado, do nosso indígena de hoje – um indivíduo em contato com a civilização, porém longe de ser “branco”.

Nas palavras do pensador, a exibição Variações do Corpo Selvagem trata da insurreição perpétua subterrânea que pulsa por debaixo da hipocrisia, da brutalidade e da estupidez que define a história do Brasil. E pode-se acrescentar, a incapacidade de muitos brasileiros em reconhecer o indígena, aquele sujeito de shorts, cabelos lisos e olhos puxados, ou aquele outro mais esquecido, o que vive dentro de todo cidadão brasileiro. De volta ao princípio, somos todos índios, a não ser quem não é, e esses sabemos quem são.

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