Nossa cultura patriarcal nas eleições 2014

“Há o constante predomínio das vontades particulares que encontram ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis à impessoalidade.” Com essa frase, Sérgio Buarque de Holanda define o homem cordial brasileiro no livro de 1936 Raízes do Brasil. As eleições são um fenômeno que define a realidade patriarcal brasileira. Vota-se no indivíduo, a despeito de siglas, poucas vezes levando em consideração o que o candidato trará para o estado ou país, mas sim o que ele poderá trazer para a pessoa que vota. Infelizmente, a realidade do início do século XX continua em voga no século XXI.

As eleições municipais são forte exemplo da pessoalidade das relações brasileiras, que não consegue separar o público do privado. O voto é concedido ao familiar, ao conhecido, ao médico que trata a doença do sobrinho, ao comerciante que pagou o vestido de debutante da filha do eleitor. As pessoas concedem o voto para quem estão pessoalmente ligadas e não para aquele que está mais preparado para trazer benefícios para a comunidade. Prefeitos e, principalmente, vereadores, são escolhidos a depender de favores individuais, amizades, e proximidade nos círculos sociais, nunca pela razão a qual deveriam ser eleitos: competência e mérito.

O mesmo fenômeno ocorre nas eleições presidenciais, mas a impossibilidade de ser próximo do futuro governante gera um fato ainda mais estranho. Disputas e decisões são travadas com base nas características pessoais do presidenciável e não em suas propostas de governo. Vide o exemplo de Marina Silva, que é escrachada por muitos por ser evangélica, apesar de já ter dito que as opiniões pessoais que possui sobre determinados assuntos não refletem decisões que serão tomadas em conjunto com o legislativo e a população brasileira. O mesmo ocorre para o presidenciável Aécio Neves, que por ser jovem e ter aparições sociais constantes é levado à descredibilidade. Quando se escolhe ou julga um candidato por características pessoais, propaga-se a cultura patriarcal, o que demonstra a incapacidade da sociedade brasileira em separar o público do privado.

Dessa maneira, as discussões políticas das eleições de 2014 resumem-se a caracterizações individuais dos presidenciáveis. O perfil falso Dilma Bolada é genial por levar a população para dentro da casa de uma fictícia presidenta, ao postar opiniões pessoais de Dilma, como se ela fosse a colega ao lado. O brasileiro quer um presidente que seja um pai ou uma mãe, e acredita que é o executivo, encarnado no indivíduo e seus hábitos pessoais, que decide os rumos do país. O totalitarismo saiu do Brasil, mas não deixou o brasileiro, que continua a ter uma inclinação ímpar para mandar e ser mandado, de acordo com o sociólogo Sérgio Buarque. As inclinações prosseguem patriarcais.

A decisão em quem votar deve ser fria e calculista. Quais são as propostas desse candidato e como foi sua última gestão em um cargo público, independente de origens, religiões e gostos pessoais. O brasileiro reclama da política de governantes, mas esquece ou deseja esquecer que quem possui o controle dos rumos do país é a sociedade civil, por meio do voto e da participação constante na política. O presidente governa com o cidadão, nunca acima dele. O indivíduo não vai votar no candidato que o espelha, mas em quem tem melhores condições de governar de maneira justa, não apenas porque o executivo não governará sozinho, pois depende das decisões dos ouros poderes, mas também porque depende constantemente das decisões da sociedade.

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