No fogo cruzado

Indígenas na Colômbia formam milícias para protegerem suas comunidades do fogo cruzado entre o Exército Nacional e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Tornaram-se uma forma de resistência étnica e dão o exemplo para outras comunidades.

A Associação dos Cabildos Indígenas do Norte de Cauca (Acin) criou patrulhas indígenas para garantir a não intromissão das Farc e do Exército Nacional em reservas e regiões predominantemente indígenas. Situações de conflito são intermediadas, e procura-se afastar qualquer tipo de ação, quando possível, dos civis, a fim de evitar mortes.

No último dia 2 desse mês, uma escola na montanha de La Palma ficou no fogo cruzado entre governo e Farc. As milícias indígenas intermediaram o conflito para que ele cessasse naquela região e, por feliz consequência, ninguém se feriu.

A Acin preocupa-se em não perder as particularidades culturais nas futuras gerações. A patrulha indígena é uma maneira de criar uma unidade entre os jovens, na sua maioria entre 15 a 18, uma vez que a cooptação de jovens indígenas para as Farc  e para o Exército é um acontecimento comum no país. Também atuam para averiguar a não intromissão das Farc e do Exército em território preservado para os nativos.

A cidade de Toribío, onde há as milícias, conta com uma população quase em sua totalidade indígena e é uma das regiões mais atingidas pelos conflitos. O território é estratégico para os guerrilheiros por fazer divisa com outros estados e ser topograficamente de difícil acesso. São mais de 3 mil integrantes na atualidade e apesar de não usarem armas de fogo, conseguem vitórias significativas em suas ações, como foi o resgate de dois líderes comunitários capturados.

A Acin  representa a etnia indígena Nasa, uma das maiores da Colômbia. Esta associação  tem o direito de julgar os crimes cometidos contra os indígenas em seus próprios termos. Em 2013, condenou dois guerrilheiros das Farc ARC a quarenta anos de prisão cada, pelo assassinato do médico indígena Benancio Taquinas, de 49 anos de idade, perseguido por fazer denuncias das Farc para a Cruz Vermelha.

Em 2004, um grupo de milicianos indígenas conseguiu resgatar dois líderes comunitários em um estado vizinho que tinham sido capturados em Turibío. Os indígenas organizaram uma coluna que atravessou Cauca para resgatar os reféns em Caquetá, estado vizinho.

Os indígenas se apoiam no Convênio 69 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que garante o direito às comunidades tradicionais de conservarem seus costumes e instituições próprias.

As comunidades desenvolveram uma maneira de se autopreservarem ao reflexo da realidade armada do país. Reuniram-se em torno de um único objeto, sobrevivência. E à medida do possível tentam proteger os seus territórios.

Não é sábio subestimar a capacidade de adequação daqueles que não têm escolha.

Deixe uma resposta