Nigéria 260 – #BringBackOurGirls

Chibok, cidade no nordeste da Nigéria, foi palco de uma tragédia que mobilizou o mundo. Aproximadamente 260 meninas foram raptadas pelo grupo extremista Boko Haram na noite do dia 14 de abril em uma escola. Os números ainda não são exatos. A instituição de ensino foi queimada e as meninas permanecem em cativeiro. Em vídeo, o líder do grupo pede por troca de presos. Estados Unidos e Inglaterra já enviaram ajuda militar para dar suporte nas buscas. Vídeos foram divulgados e parte dos culpados identificada. A outra parte permanece oculta em meio aos aparatos do petróleo.

Na língua local hausa, Boko Haram significa a educação ocidental é um pecado. Em um dos vídeos divulgados, o líder aparece munido com uma metralhadora, em frente a dois tanques de guerra. Apesar de muitos apontarem o caráter extremista do grupo islâmico que raptou as meninas de Chibok, pouco se comenta sobre as possíveis causas. Aparentemente, ser islâmico e extremista é motivo suficiente para a mídia ocidentalizada. Nada se fala sobre a estrutura do crime organizado na Nigéria, possível tanto pela ausência do Estado, quanto pela consequente marginalização de parte dos nigerianos.

Rica em petróleo e corrupção, a Nigéria possui conflitos históricos em torno do ouro negro. A corrupção é endêmica e os proveitos que a fonte energética mais cobiçada do mundo poderiam gerar não estão disponíveis para a maior parte dos nigerianos. A população economicamente ativa abaixo dos 35 anos acumula 70% de desempregados e o nível de escolaridade é extremamente baixo.  A expectativa de vida é de 52 anos.

Muitas das meninas que foram sequestradas eram cristãs. O grupo que as raptou sinalizou a revolta contra a cultura ocidental. A mensagem é simples: queremos que todos sejam contrários ao que nos faz mal – o capitalismo do Ocidente. O líder do grupo Boko Haram afirma em vídeo que mulheres devem ser educadas em casa, e não em escolas. O baixo índice de escolaridade do país reflete na proliferação de milícias religiosas, principalmente no norte do país.

A posição da Nigéria na divisão internacional do trabalho colabora para a revolta interna da população contra países ocidentais. Apesar de haver uma dependência internacional incontestável e exploração recente do país pelas potências a oeste, o discurso de diversos governos africanos contribui para que o Ocidente seja entendido como o inimigo. Colocar a culpa em personagens externos é o meio de lideranças totalitárias e corruptas continuarem no poder.

Na guerra entre as milícias marginais e os donos do capital, vidas inocentes são sacrificadas. Campanhas para a volta das estudantes tornaram-se mundiais e há esperança de que todas consigam retornar para seus lares. Elas representam a pureza, o que não foi tocado pelo crime financeiro ou civil. Eram meninas que estudavam para ter um futuro melhor e poder combater os males do país com palavras e ações concretas, não criminosas. Elas representam a salvação possível dos dois lados dessa guerra e foram raptadas dentro da única instituição que pode mudar os rumos da Nigéria – a escola.

A desigualdade social costuma ser medida em números e o número da Nigéria é 260.

Deixe uma resposta