Não me peça para vestir a camisa

No jogo de abertura da Copa do Mundo entre Brasil e Croácia, ao contrário do que todos poderiam imaginar, o desconforto perante as câmeras do mundo veio das acolchoadas cadeiras padrão FIFA. Os torcedores brasileiros no estádio ofenderam a maior autoridade do Brasil em três momentos num coro mui bem elegante, só que não: “Ei Dilma, vai tomar no cu”.

E a pergunta de quem estava de fora do Itaquerão, vendo a ofensa invadir o costumeiro zum zum zum da torcida, foi – ué? Por que estão xingando a presidenta?

Cinco minutos de reflexão sobre o porquê daquela vaia é o que falta para aqueles, perdoe a ironia, manifestantes. Matheus Pichonelli argumenta muito bem em sua crônica Teve Copa. E teve relincho, quando chama aquela elite que estava assistindo ao jogo no estádio de “cidadão Teletubbie”, incapaz de associar “alhos com bugalhos”. Aqueles mesmos que acreditam na volta do comunismo pelas mãos do Partido dos Trabalhadores (PT).

E o que parece brincadeira, infelizmente não é. Essa arquibancada representa a minúscula parcela da população com a melhor capacidade de instrução do país. Ao que tudo indica, diploma e dinheiro não determinam a educação social e política e o espírito crítico de alguém.

São essas pessoas que compram o jornal por causa da manchete associando a tática de manifestação Black Bloc com o crime organizado.  É esse cidadão que não sai de casa em dia de jogo porque acredita, piamente, no boato que o Primeiro Comando da Capital (PCC) irá perder o seu precioso tempo disseminando o caos pela Vila Madalena.

Como se não fosse o suficiente, quando a polícia militar troca as polêmicas balas de borracha por munição real no confronto com manifestantes que estão, de fato, sendo prejudicados pelos mandos e desmandos da FIFA, o Teletubbie aplaude.

Hoje veremos, em meio a urros de “vai Brasil”, comentários do tipo “é isso aí mesmo, tem que sentar porrada”, “greve é foda”, “quem disse que não ia ter Copa”, etc, etc.

Eu gostaria muito de poder engrossar o coro da torcida pela – veja bem! – seleção brasileira, esse esporte que representa um traço tão forte da nossa cultura e que é, desculpe o clichê, uma das paixões brasileiras. Mas não dá.

Não dá para vestir o mesmo uniforme verde e amarelo que transmite a impressão de que somos iguais porque, meu caro… Não somos.

Eu torço pela sociedade brasileira e, por isso mesmo, não me peça para vestir a camisa. Não dessa forma, não hoje.

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