Não me encoxa que eu não te furo

O metrô de São Paulo está divulgando campanha contra abusos sexuais dentro dos trens desde o começo desse mês. Isso se deu em resposta às denúncias de uma série de desacatos contra mulheres nos vagões de trem e metrô. A situação chegou a tal ponto que, em pouco mais de 48h, três homens foram encaminhados para a delegacia acusados de assediar passageiras.

O grupo feminista Mulheres em Luta articulou a campanha “não me encoxa que eu não te furo” para encorajar as vítimas a reagirem contra os seus agressores e de não se intimidarem diante do ataque. As ativistas entregaram alfinetes na frente da estação Capão Redondo, linha cinco do metrô. A ideia é incentivar a confiança das mulheres para reagirem e denunciarem qualquer tipo de comportamento ofensivo.

Não se trata apenas de tentativa de estupro, encostar-se às nádegas, no peito ou filmar com o celular por baixo da saia das mulheres são ações que também podem ser consideradas abusivas.

A orientação da polícia é procurar imediatamente as autoridades e denunciar o abuso, mas ressalvam que o ideal seria se houvesse uma terceira pessoa como testemunha. O que geralmente não tem. Há dois projetos de leis em São Paulo que tratam do assunto, mas ambos estão parados na Assembleia Legislativa do Estado.

Por não haver uma legislação adequada para lidar com esse tipo de crime, os agressores são, na maioria das vezes, rapidamente liberados.

É correto afirmar que essas pessoas não mais atuam de forma isolada. Há comunidades no Facebook, como os encoxadores de plantão, que incentivam e ensinam meios de abusarem de passageiras sem serem percebidos. Os delitos são filmados e compartilhados entre eles.

O grande problema desse tipo de abordagem é o constrangimento da vítima até em prestar queixa contra o agressor. A sociedade machista vai culpar as mulheres por se vestirem de forma inadequada em um ambiente coletivo. E quando um estuprador diz que agiu porque “não aguentou”, uma parcela dos homens dão razão a ele.

Vagão Feminino

A situação reacende a medida de se criar um espaço exclusivo para mulheres em horário de maior movimentação no transporte público. A medida existe desde 2006 no Rio de Janeiro e não há índices que mostram a queda da violência sexual dentro dos trens com a adequação. Alguns homens não respeitam o espaço e os funcionários do metrô não têm a autoridade de conter os usuários do transporte.

Segregar as mulheres apenas no horário de pico é desprotegê-las em outros momentos do dia. Isso sem levar em conta a situação das passageiras que não embarcarem nos vagões especiais. Elas estariam dando a entender que aceitam uma situação abusiva? Os vagões “Rosa”, como foram apelidados no Rio, dividem opiniões.

De um lado, é visto como solução em alguns países como Rússia, Filipinas e Japão. De outro, é um passo a trás na luta pela igualdade de gêneros e no respeito entre eles.

Há pelo menos três problemas graves relacionados ao transporte. O primeiro é a cultura machista que justifica e apoia a violência contra a mulher, o segundo é essa mesma mentalidade que silencia as vítimas dos abusos.

E, finalmente, o terceiro e mais óbvio dos problemas – o transporte inadequado dos brasileiros. Situação que desrespeita tanto homens quanto mulheres.

Segregar os gêneros não vai ensinar uma sociedade a respeitar e conviver com suas mulheres, pelo contrário, vai só colocar panos quentes em uma situação que por má vontade de políticos, na maioria homens, ainda não foi articulada como deveria.

O alfinete, por enquanto, ainda é a melhor garantia de segurança para a mulher no transporte público do nosso país.

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