Não é apenas um calote

A União Europeia procura fechar acordo com a Grécia, ainda assim, o comprometimento exigido pelos países do bloco europeu deve passar pelo crivo grego. Ao que tudo indica, a Grécia deve cumprir as medidas restritivas. Mas de onde tiramos essas indicações? Seria mesmo uma questão de dívida e calote ou o cenário é muito mais complexo do que o noticiado?

O presidente Aléxis Tsípras foi eleito pelos setores de esquerda do país com a promessa de defender a nação contra os cortes profundos de orçamento, direitos previdenciários e aumento de impostos. Em sua campanha, disse que faria o que fosse preciso, custe o que custasse, e o plebiscito grego foi uma boa tentativa de democratizar as decisões gregas diante da crise, porém a paciência dos credores é curta e não se importa nem um pouco com as preferências do cidadão grego. Exigem um posicionamento rápido, ou a Grécia negocia, ou é expulsa da União Europeia.

O caso seria mais simples se fosse apenas uma questão de preço e pagamento, mas não é. A Folha de São Paulo foi muito bem sucedida no último domingo dia 12 em intitular a cobertura econômica especial Grécia de: “não é só pelos 320 bilhões”.

Das tantas análises publicadas sobre a má administração grega, é importante estar atento à informação que chega até o Brasil sobre o caso. Na maioria das vezes, são traduções de agências de notícia alemãs e inglesas que querem que o mundo acredite na falta de opção dos “caloteiros” gregos, o suposto grande e único nó da crise que se apresenta.

Alexandre Schwartsman, economista e colunista da Folha, deu nova luz ao caso quando levantou a problemática estrutural da própria União Europeia. Além da má gestão grega, com os recursos de resgate financeiro, que é inquestionável, e das absurdas exigências de recessão dos credores, existem mais questões não resolvidas e quase nunca comentadas em relação a essa proximidade aparente entre os países membros do bloco. Seriam essas portas de vidro as (também) responsáveis pela tragédia grega, não mais tardar, talvez a espanhola, a portuguesa ou a italiana.

O economista fala do que faltou ser feito quando arquitetaram a ambiciosa união de parte da Europa em um bloco econômico. A livre circulação de pessoas, de acordo com Schwartsman, deveria acontecer junto com a integração fiscal entre os países: “como se fossem estados de uma mesma federação”. Dessa forma, um estado mais próspero, Alemanha, por exemplo, poderiam auxiliar o seguro-desemprego do grego ou do português, fazendo com que os países menos desenvolvidos tivessem mais oportunidade de crescimento econômico, uma vez que os gastos internos destes seriam reduzidos.

Também aponta a unificação bancária para garantir a seguridade de depósitos e melhorar a rapidez nas manobras de urgência. Mas para tais medidas, seria preciso abrir mão de uma parcela da soberania nacional. No campo teórico, é claro, as soluções são mais fáceis.

Quando se formou a União Europeia, não houve a união efetiva de realidades econômicas. O trágico sobre as condições ideais de uma unificação aduaneira é que elas nunca serão pensadas sobre a lógica do mútuo acordo e cooperação; afinal, o sistema capitalista se sustenta pelas diferenças. Se as temos é para que uns possam ditar as regras e outros obedecê-las.

O Banco Central Europeu (BCE) adiou o fechamento dos bancos gregos até a próxima quarta-feira 15. E o parlamento grego seria prudente em aprovar as medidas de austeridade ainda essa semana.

Sobre igualdade e cooperação mútua, não sei, eu particularmente, não vejo.

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