Na “marchinha” da família, sobrou até para Jesus

A marcha da família com deus pela liberdade foi o tema de uma série de manifestações contra a “ameaça comunista” que pairava sobre o país enquanto João Goulard estava na liderança em 1964. Goulard falou sobre reformas no sistema agrário em um contexto de Guerra Fria em que todo o passo em falso era motivo de suspeitas, entende-se que uma parcela da sociedade tenha se deixado enganar. E hoje? Onde está a ameaça comunista? No PT?

A passeata começou por volta das 16h do último sábado e reuniu cerca de 700 pessoas no momento de maior concentração. Os manifestantes vestiam a bandeira do Brasil, acusavam o governo Dilma de comunista e pediam o retorno das forças armadas. A marcha da família versão 2014 é feita poucos dias antes dos 50 anos de golpe militar que acontece no dia 1o de abril.

Há uma pequena incoerência de discurso entre as manifestações de 64 e a de hoje. No passado, não pediam a presença dos militares, a conjuntura histórica daquele momento favoreceu setores conservadores e o golpe aconteceu 11 dias depois. A passeata, de certa maneira,  justificou uma adesão popular ao desfecho militar, queriam a retirada do presidente e não o fim da representação democrática.

Dessa vez, pedem pelo retorno das forças armadas no poder executivo simplesmente ignorando, ou talvez desconhecendo, as atrocidades feitas pelos militares em 20 anos de governo.

Os organizadores exigem a intervenção militar para depor políticos corruptos e convocar novas eleições apenas com os candidatos de ficha limpa. Também defendem a volta dos valores morais para a sociedade. Após a marcha, uma homossexual foi agredida no mesmo local.  Marcos Paulo Cardoso Pereira foi preso e um policial ficou ferido ao tentar proteger a vítima.

São esses os valores que as famílias conservadores pedem a deus nas orações feitas na manifestação? Os princípios que defendem a violência contra homossexuais? Longe das generalizações, mas é coerente desconfiar que os estavam ali não concordam com a livre opção sexual de alguém.

É difícil de acreditar que aquelas pessoas estavam pedindo pelo retorno de um sistema de governo em que qualquer crítica ou opinião era fortemente reprimida. É ainda mais difícil entender que protestavam no último sábado, porque acham que assim serão mais livres.

Livres das diferenças, livres das mudanças que inevitavelmente acontecem, com ou sem “marchinha”, só se for.

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