Morrer na praia lifestyle

Eu poderia caminhar um dia inteiro. Aliás. Eu poderia caminhar por semanas. Eu já caminhei por dias. Dezesseis dias. Digo dezesseis. Foram seis. Mas eu digo dezesseis. Aumento. Invento. Não, não invento. Eu só aumento. Afinal, o fato aconteceu. Só não aconteceu assim do jeito que eu te conto como aconteceu. Eu minto, eu sei, eu minto quando acrescento um decimal na casa dos feitos. E você me julga. Eu aceito. Você tem razão. Realmente, não foi assim, não foi tudo isso. Foram seis digo dezesseis. Eu invento. Não, não invento. Eu só (na singeleza que esse só pode acrescentar para aquilo que eu vá te dizer depois) … Eu só aumento. Por favor, entenda-me.

É preciso saturar as cores, aumentar o contraste, borrar as bordinhas dessa vida opaca para ver se ao menos alguém olha com mais atenção para aquilo que se decide resgatar da sopa do que se foi.

Quem sabe assim, tipo um Homero contado às traças, entre um gole de gim e a promessa de uma transa, você fica e me ouve e tira algum proveito dessa baboseira toda que eu te fiz acreditar para que eu pudesse acreditar naquilo que eu te dizia também.

É assim, entende? Foram seis. Digo dezesseis.

Se não fosse o sono e o compromisso absurdamente desimportante, se não fosse o transito, o banco, o bico, o frio que me faz levantar do assento, a fome que não existe, o coração apurado, o carro parado numa rua estacionária, eu poderia, eu juro que eu poderia, eu poderia ser aquela que inclusive você achou que eu seria, aquela que tem tudo, aquela que pode tudo, aquela que carrega tudo, inclusive você se um dia as forças te falham… é aquela coisa que eu venho dizendo.

Eu poderia caminhar por dias. Dezesseis dias. Eu caminhei por dias. Digo dezesseis, foram seis. Digo dezesseis.

Eu poderia caminhar até as minhas pernas desmembrarem do quadril se fosse o caso. Eu poderia inclusive planejar o melhor caminho, aquele que me tomasse mais tempo e mais sacrifício e fosse a mais santa entre todas as trilhas, uma estrada toda especial entre o agora e o derradeiro porvir. Lá longe, lá na frente, lá onde eu finalmente estaria, se não nadando num pote de ouro, ao menos embaixo dos holofotes daquele arco-íris naturalmente cafona e que tanto funciona naqueles momentos em que a gente para! e olha para o céu e pensa; poxa vida, que dia bonito.

Acontece que no 10 km, eu paro.

Planos. Metas. Horizontes. Cultivo um tipo de amor etéreo com todos eles. Sempre admirados, lembrados e anotados em versos em branco de folhas sulfites de outros planos e metas e horizontes, que na grande maioria dos casos também virou rascunho. Planos, metas e horizontes então rasurados e destrinchados em outros planos, metas e… em cantos ainda mais apertados de rascunhos rascunhados até por fim a desistência efetiva do pensamento.

E a transformação do desejo na única coisa por certo concreta quando se desiste de algo sem ao menos dar-se ao esforço: uma bola de papel porte médio e a crueldade por trás do ato: mira, arremesso, lixo.

É. É sim. Sem querer parar, eu paro. Eu só paro.

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