Miss Simone

Nina Simone foi umas das maiores e mais geniais cantoras e pianistas que passou pelo século XX. Nina nasceu Eunice Kathleen Waymon, em 1933, e mudou seu nome ao decidir cantar em bares para sustentar a família, que na época chamava esse tipo de música de música do diabo. Seu sonho sempre foi ser pianista clássica. Toda a história de Nina parece convergir no momento em que ela deixa de ser quem ela era ou, ao menos, em quem ela desejava ser: Eunice Waymon, a pianista clássica.

Nina Simone é uma mistura de niña, menina em espanhol – como um namorado a chamava -, e do nome da atriz francesa Simone Signoret, que foi militante do partido comunista francês, e famosa não apenas por ser atriz, mas também pelas lutas políticas que travou. Nesse momento, nascia a Nina Simone que o mundo conheceria. Dentro dela, a menina frágil e a luta, o carisma e a revolta.

Por toda sua vida, Nina irá lembrar-se de quando foi recusada pelo Curtis Institute of Music, na Filadélfia, após ter estudado música na Julliard School em Nova Iorque. Na infância, foi ajudada pela patroa de sua mãe e por uma professora de música, que viu o talento da pequena Eunice em um concerto de igreja. A mãe da pequena pianista era empregada doméstica e negra na segregada cidade de Tryon, na Carolina do Norte. Desde pequena, Eunice viveu em dois mundos separados pela cor de pele – sua casa e a a casa de sua professora de música, uma antes e a outra depois da linha de trem que separava negros e brancos na cidade.

A obra de Nina é diferente de todas as outras. Seu conhecimento de música clássica a diferenciava de outros artistas da época, pois seu ouvido para as notas musicais a fazia brincar com os arranjos, quebrando-os e transformando-os junto com o público. Al Shackman, gritarrista que sempre a acompanhou, entrava na música de Nina de ouvido, improvisando transformações musicais.

No palco, Nina encantava a todos, mas havia uma certa inquietude que sempre a acompanhava. A irritação com os fãs, os quais ela sempre comparava com a plateia de um concerto de piano clássico, que deveriam sempre estar em silêncio. De certa maneira, Nina sempre voltava a visitar Eunice, criando uma dicotomia de personalidades, como o jazz e blues da melodia quebrada que compunha.

Na década de 1960, Nina Simone militou junto ao Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, ao lado de Marthin Luther King e Malcom X. Naquela época, o movimento negro estava organizado para reivindicar seus direitos dentro da Constituição estadunidense após 100 anos de fim da escravidão. A música de Nina torna-se cada vez mais militante. A artista inicia uma luta que teria poucos ganhos com muitas perdas, como a morte de quase todos a seu redor, líderes do movimento negro. Algumas músicas, como Mississipi Goddam, foram banidas em alguns estado do sul dos EUA. Ela também foi punida pela indústria da música, que começou a rejeitar as músicas de militância.

O primeiro casamento de Nina foi marcado por brigas, em que constantemente ela sofria abusos e maus tratos por parte do marido, que também era seu empresário. Dentro de casa, havia a fragilidade da condição machista, fora, Nina lutava a batalha por direitos iguais entre brancos e negros. Em 1970, Nina deixa o marido e sua carreira para viver na Libéria, onde ela afirma que foram os melhores anos de sua vida, perto de suas origens na África.

Após alguns anos fora do palco, por problemas psicológicos e abandono da carreira, Nina retorna com o apoio de velhos amigos, e, não diferente, torna-se novamente um grande sucesso na década de 1990. Médicos a diagnosticaram com transtorno bipolar e depressão e Nina inicia tratamento. Sua filha dizia que quando ela não tomava a medicação, sua música ia além do que todos já consideravam genial.

Ao final da vida, Nina Simone teve todos os reconhecimentos que poderia desejar em vida. Foram 15 nomeações para o Grammy Awards e  a premiação do Grammy Hall of Fame em 2000. Dois dias antes de morrer, o Curtis Institute lhe deu o diploma que ela tanto sonhara quando tinha seus 20 anos. Por toda sua carreira, ela relembrou a vontade de ter sido a primeira pianista clássica negra nos EUA. Nina nunca se desconectou da jovem Eugene e parece ter vivido a vida toda dentro da dicotomia criada por ela. E é essa dupla maneira de ser, que ela carregava na alma e na música, que a fez ir além.

Nina Simone e Eunice Waymon representam o que somos e o que queremos ser, aquele constante sentimento de incompletude, que nos faz lutar por algo melhor, mas que nos lembra a cada dia de quem somos e de nossas limitações. Ela é o ativismo, sempre tão inconstante e incompleto, tão carente da perfeição. Nina e Eugene são uma só, e a conexão que ela teve com o público vem do fato de que ela está, ao cantar sua alma, cantando a alma de todos.

 

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