Memórias do Subdesenvolvimento

O livro, Memórias do Subdesenvolvimento, do cubano Edmundo Desnoes, empresta sua história para o filme de mesmo nome de um dos maiores cineastas de Cuba, Tomás Gutiérrez Alea. Lançado em 1968, o filme retrata a vida de Sérgio, um burguês que se vê abandonado na ilha por sua família e esposa após a Revolução. Em transes psicológicas, o personagem principal vive o paradoxo interno de detestar ao mesmo tempo o subdesenvolvido e a ótica burguesa que o faz existir. Opta por ficar, mas distancia-se dos que ficaram e dos que se foram.

Sérgio vive em um apartamento luxuoso em Havana e recorda dos tempos em que brincava com amigos nos grandes casarões do bairro de Vedado. Apesar de criticar a esposa burguesa que foge da ilha em busca de superficialidades consumistas, ele é parte da mesma burguesia e, por mais que se distancie, prossegue com hábitos daquela classe, ao consumir lindas mulheres e entender-se como superior ao povo cubano. A passagem sobre a esposa: “Tive que trabalhar para sustentá-la como se fosse de Nova Iorque ou Paris, e não dessa ilha subdesenvolvida”, demonstra o caráter subdesenvolvido do burguês que se espelha na burguesia de um país rico. A elite de um país pobre nunca será a elite de um país desenvolvido, e o filme mostra o tempo todo a relação entre o colonizador e o colonizado.

Em uma das cenas, Sérgio seduz uma garota de 17 anos. De maneira inocente, a sedução aparenta um relacionamento consentido de ambas as partes. Quando o personagem principal decide abandonar a menina, ela se revolta e o denuncia para as autoridades como um sedutor que lhe tirou a virgindade. O personagem chega a lembrar que antes da Revolução ele nunca seria levado a um tribunal por alguém do povo. Mesmo assim, a sentença é favorável a ele. Porque, no mundo, mesmo com Revoluções, as sentenças sempre serão favoráveis ao dominador. O subdesenvolvido deixou-se dominar, por isso é culpado de sua condição.

E essa dicotomia revolucionária que une a coragem de revoltar-se contra a dominação com a impossibilidade de ser um dia o dominador é o que empresta ao livro e ao filme seu caráter único. O termo subdesenvolvimento é por si só uma maneira de se subjugar ao outro, pois a própria palavra denuncia um estado anterior ao que se deseja chegar, o desenvolvimento. Contudo, na divisão mundial entre ricos e pobres, a elite subdesenvolvida nunca será igual à desenvolvida, e a revolução nunca deverá desejar ser como o imperialismo, porque o subdesenvolvimento e a revolução apenas existem, porque existe o desenvolvido.

Sérgio só é superior em Cuba, não fora dela. Apesar de criticar a burguesia e ver a revolução como necessária, o fato de ele não ter saído da ilha denuncia a vontade de ser superior no único lugar que ele o é. De acordo com ele: “Isso é tudo que merecemos, cópias, não somos mais que uma imitação ruim dos países poderosos e civilizados, uma caricatura, uma reprodução barata.”

Memórias do Subdesenvolvimento denuncia a superioridade de classes em nível nacional e internacional, e lembra a todos que o subdesenvolvimento apenas existe porque existe o desenvolvido que cria o inferior à sua imagem, em uma tentativa falsa de transformar todos em iguais.

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