Medo de sair de dentro do carro

A maior parte da população possui um medo crônico de sair de dentro do carro. Qualquer meio de transporte que não seja o veículo motorizado individual é inseguro. Tudo o que atrapalha o carro é afronta para o indivíduo, como se a carcaça motorizada fosse uma espécie de continuação do corpo humano. A implementação de ciclovias e faixas de ônibus, que são construções simples e de baixo custo para o poder público foi e continua sendo um desafio. Contudo, o problema não se resume a uma briga entre classes de transportes. Trata-se principalmente de medo de mudança.

Os usuários de carro utilizam o discurso do medo. A bicicleta é perigosa, e o trem e o ônibus não são meios aconselháveis depois do entardecer, ou mesmo durante o dia. A preocupação é a mesma, segurança. Os acidentes e infortúnios dos usuários desses transportes são citados como se acidentes de carros tivessem legitimidade para acontecer. A ótica individualista chegou a tal ponto, que pensar no coletivo, dividindo o espaço, tornou-se uma atividade perigosa.

Semana passada, a Promotoria da Justiça do Ministério Público Estadual (MPE) entrou com pedido para que ciclovias e ciclofaixas tivessem as construções paralisadas por falta de planejamento municipal. A ação civil pública esbanja preconceito e falta de informação ao condenar ciclovias. As frases que mais chamaram a atenção foi o erro em afirmar que o transporte individual é o que mais transporta pessoas e que as ciclovias representam um risco à segurança das pessoas. Primeiramente, o meio de locomoção mais utilizado pelas pessoas é a pé e via transporte público, de acordo com pesquisa  de Origem e Destino do Metrô de 2007, e o meio de locomoção que mais mata nas grandes cidades é a motocicleta.

A falta de conhecimento do relator é reflexo da falta de entendimento da população em geral, que está costumada a compreender o carro como um bem que propicia a mesma segurança que uma casa própria. O carro tornou-se mais um objeto de desejo daqueles que buscam as seguranças do status quo. Na sociedade brasileira o tripé existencial se resume a: casa, casamento e carro.

O carro é defendido com unhas e dentes não apenas pelo conforto, mas principalmente por segurança. Porém, a segurança propiciada é falsa. Assaltos a carros e acidentes fazem parte do dia-a-dia das grandes cidades brasileiras. Andar a pé, utilizar o transporte público e andar de bicicleta fogem do comum para muitos. É hora de a sociedade mudar sua mentalidade. Segurança é aquilo que fornecemos ao outro e não apenas o que recebemos. Quanto mais pessoas ocuparem as ruas, mais segurança nossas cidades terão.

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